domingo, 14 de maio de 2017

Quatro homenageados do A.T.C. em 1934



Diário do Interior,  sexta-feira, 16.2.1934, p.2.
Na sessão de diretoria do Avenida Tênis Clube, em 8 de dezembro de 1933, o tesoureiro, Ernesto Lang, propôs que fosse inaugurado, na sede do clube, um quadro com as fotografias dos associados João Appel Lenz, Carlos Lang, João da Costa Ribeiro e Alcides Roth, "em homenagem aos relevantes serviços daqueles consócios." 
João Appel Lenz, então presidente, estava em licença para tratamento de saúde, desde fins do mês anterior, e João da Costa Ribeiro, presidente em exercício, afastou-se da sessão. Assim, esses dois dirigentes ficaram ausentes da sessão que aprovou a homenagem.
O quadro, com cerca de 70 por 90 cm, foi produzido na Casa Herrmann, com fotos do famoso fotógrafo Venancio Schleiniger. Essa loja, no ramo de perfumes, instrumentos cirúrgicos e fotografias, ficava na Primeira Quadra da Rua do Comércio, onde hoje está a Ótica Gaiger, no Calçadão Salvador Isaia, nº 1293. O quadro ficou em exposição na vitrine da Casa Herrmann até 18 de fevereiro de 1934, domingo.

Inauguração
Na noite de 3 de março de 1934, sábado, num ambiente de muita alegria, realizou-se a festa do A.T.C., para eleição e posse de nova diretoria, homenagem ao prefeito Edler e inauguração do quadro dos quatro ateceanos homenageados.
Às 23 horas, uma comissão composta do presidente João Appel Lenz e das jovens Norma Seibel, rainha do A.T.C., e Lucia Izaguirre introduziu, sob aplausos, o prefeito municipal,  João Antonio Edler, no salão social da sede.
A seguir, a diretoria propôs e a assembleia aprovou a concessão do título de Sócio Benemérito ao prefeito Edler, por ter deferido o pedido referente à cessão de mais uma área ao A.T.C. e por ter documentado a regularização da permanência do clube na Praça da República.
Foi então proposta a eleição da nova diretoria por aclamação, com o que concordou a assembleia. Foram aclamados: Presidente – Dr. João Geiger Bonuma; vice – Dr. Lamartine Souza; 1º secretário – Alcyr Pimentel; 2ª secretária – Lucia Izaguirre; 1º tesoureiro – Athos Lenz; 2ª tesoureira – Amelia Pereira; diretor esportivo – Carlos Lang; Conselho fiscal – Ennio Brenner, Ernesto Lang e João da Costa Ribeiro.
Deixando a presidência, o Dr. João Appel Lenz convidou os novos membros da diretoria a tomarem posse em seus cargos, o que foi feito sob uma salva de palmas.
O Dr. João Bonuma agradeceu a indicação de seu nome para presidente do A.T.C. e prometeu tudo fazer em prol do tênis.
À meia-noite, foi inaugurado o quadro com as fotografias dos quatro destacados ateceanos João Appel Lenz, Carlos Lang, João da Costa Ribeiro e Alcides Roth.
Carlos Lang agradeceu, em nome dos homenageados, a significativa prova de apreço dos seus consócios.
Seguiu-se um animado baile que terminou na madrugada de domngo.
 
No sentido horário, João da Costa Ribeiro, Alcides Roth, Carlos Lang e João Appel Lenz.
O quadro dos quatro homenageados não mais existe. A imagem acima é uma fotomontagem, baseada na memória e em foto do álbum da família (abaixo). Foram usadas fotografias dos acervos fotográficos das famílias dos homenageados e de uma publicação na revista A.T.C.
Assim como aconteceu com as placas denominativas das três quadras de tênis, na Praça da República, o quadro foi descartado e a homenagem desfeita, após a mudança da sede para o atual local, em 1958. Na foto abaixo, de 1941, vê-se, ao fundo, o citado quadro, na parede do antigo pavilhão social, na Praça da República. Vê-se também o quadro com a foto da coroação da segunda rainha do A.T.C, Amélia Pereira, em 28.7.1934. Esses dois quadros, mais o da primeira rainha, Norma Seibel e o da campeã brasileira, Carmen Paz, inaugurado em 7.9.1950, também foram descartados.
No pavilhão social do Avenida Tênis Clube, na Praça da República, em 1941. Ao fundo, o quadro dos quatro homenegeados. À frente, três jovens atletas do A.T.C.: Carmen Brenner Paz, Zilah de Almeida Cercal-- ambas com 18 anos -- e Arthur Brenner Paz, com 20 anos.

Os homenageados
João Appel Lenz (Guta)
João Appel Lenz, em 18.10.1931.
Nasceu em Santa Maria, em 28 de julho de 1896, e foi batizado em 6 de março de 1897. Era filho do comerciante João Lenz e Lydia Appel Lenz. Seu pai era chamado de Jango, então o filho, também João, começou a ser chamado Janguta, depois reduzido para Guta. Jangote e Janguta eram antigos diminutivos de Jango.
Esse apelido de tal forma incorporou-se a João Appel Lenz, que ele foi assim chamado, carinhosamente, por toda a vida.
Em fins de 1917, formou-se em odontologia, em Porto Alegre. No ano seguinte, associou-se ao A.T.C. onde começou a se destacar como tenista.
Formou, com João Luiz Roth, irmão de Alcides Roth, a dupla para o jogo da abertura da temporada em 1.6.1919, na quadra da Av. Rio Branco. Em 1.5.1920 foi eleito diretor de mês.
Primeiro homem presidente do ATC, eleito em 13.3.1921, Guta Lenz sucedeu sua irmã Odette. Nessa data foi eleita a 1ª diretoria mista do clube, antes dirigido só por mulheres, nos cargos pricipais.
Até a data da homenagem, ele fora eleito presidente cinco vezes (1921, 1926, 1929, 1933 e 1934). Posteriormente, foi presidente em 1949.
O jornal A.T.C., na edição de 25.2.1934 homenageou o ex-presidente, na seção Galeria do A.T.C.:
No campo da administração, em cargos vários, em quase todas as diretorias, assim como empunhando a raquete, o Guta tem sabido honrar a confiança que lhe tem sido dispensada por todos os ateceanos, tornando-se, sem favor, um dos maiores fatores do progresso do nosso clube.

Em 1969, quando presidente do A.T.C., tive a honra de propor e conceder-lhe, com aprovação do Conselho Deliberativo, o título de Sócio Benemérito do clube.

Carlos Oscar Lang
Nascido em São Leopoldo, em 6.7.1901, aos 18 anos mudou-se para Santa Maria.
Carlos Lang tinha 20 anos quando se associou ao Avenida Tênis Clube. Foi proposto por Iracema Brack e admitido na sessão de diretoria, em 26.7.1921, realizada na residência de Elma Brenner, vice-presidente exercendo a presidência.
Iniciou a vida profissional como viajante comercial e, em 1927, estabeleceu-se como comerciante. Tinha
Carlos Lang, juiz  nos jogos de inau-
guração da sede do Brasil Tênis Clube, 
em São Gabriel, em  23.4.1933.
26 anos quando participou da fundação da Casa Lang Ferragens Ltda., da qual se tornou titular. A importante empresa ficava na Primeira Quadra da Rua Doutor Bozano, no prédio onde hoje está a Loja Colombo.
Até a data da homenagem, Lang havia exercido vários cargos na diretoria: 1º secretário (1929), diretor esportivo (1925 e 1928), vice-presidente (1930) e presidente (1931).

O jornal A.T.C., o homenageia, na edição de 26.5.1934:
É da guarda-velha. Na hora “H” ele sempre foi encontrado a postos. Como jogador, ataca com impetuosidade e defende com energia. Ficamos admirados da facilidade com que ele locomove aquela massa formidável de cento e tantos quilogramas. E se têm inveja dele.
Quando sobe à cadeira de juiz, hay que verlo! A turma sente logo que “há juízes em Berlim.” (Referência à disputa entre um humilde moleiro de Sans-Souci e o rei da Prússia, Friedrich II - séc. XVIII).

João da Costa Ribeiro
Nascido em Cruz Alta, era gerente do Banco da Província, em Santa Maria e, posteriormente, foi diretor desse Banco, por muitos anos, em Porto Alegre.
Associou-se ao A.T.C. entre julho de 1922 e março de 1923 (um período de quase oito meses sem
João da Costa Ribeiro, em 1934.
atas), quando o clube estava na Praça do Mercado, atual Saturnino de Brito. Em 15.3.1923, foi eleito tesoureiro, cargo para o qual foi reeleito nas duas diretorias seguintes.  Em 1927 foi eleito presidente e foi diretor esportivo em quatro gestões (19
26, 1929, 1930, 1931 e 1932). No ano da homenagem, João da Costa Ribeiro era vice-presidente.
O jornal A.T.C., na edição de 28.4.1934, prestou-lhe homenagem:
Declara que "o Avenida Tênis Clube deve-lhe muito", acrescentando que desde seu ingresso, manifestou "acendrado interesse pelos assuntos vitais da sociedade, colaborando intensa e proficuamente pela sua manutenção e desenvolvimento, quer com elemento esportivo, quer como dirigente ou social." O texto conclui ressaltando o continuado entusiasmo de Costa Ribeiro, que o mantinha "em seu lugar de destaque na vida do clube, lídimo exemplo de tenacidade e devotamento que deve ser imitado."

Alcides Roth
Nasceu em Santa Maria, em 27 de janeiro de 1899, no então distrito do Pinhal, hoje município de Itaara, filho de Friedrich Roth, natural de Brücken/Alemanha e de Catharina Luise Albrecht, natural de Campo Bom.
Aos 19 anos, em 27.11.1918, inaugurou a Casa Roth, na Primeira Quadra da Rua do Comércio, onde hoje está o Edif. Bechara Abaide, nº 1318 da Rua Doutor Bozano, cujo térreo é parte da Casa Eny Feminina. Mais tarde, mudou a loja para o prédio em frente, hoje Galerias Roth.

Proposto por Lamartine Souza, Alcides Roth foi admitido sócio do A.T.C., na sessão de diretoria de
Alcides Roth, em 18.10.1931.
7.10.1929.
Foi eleito presidente do clube, em 18.3.1932.
No Diario do Interior, edição de 3.4.1932 , o cronista do tênis que assinava Drive, comemorou a eleição de Alcides Roth, por sua reconhecida qualidade administrativa.
Foi empossado em sessão de 17 de abril de 1932, domingo, no pavilhão social. O ato da posse foi seguido de reunião dançante, com música produzida por uma vitrola Orthophonic Victor, o primeiro fonógrafo movido a eletricidade. O aparelho foi cedido pelo presidente, que já o vendia em sua Casa Roth, pelo menos desde 1927.
Em sua gestão, as quadras de tênis foram reformadas, e o salão foi ampliado em cerca de 15 m². Para obter os necessários recursos financeiros, foi realizado um festival beneficente, no Cine Independência, em 11.5.1932.
Nos dias 19 e 20  de junho de 1932, Alcides Roth descobriu a presença, em Santa Maria, de Bruno Schuetz, do Tênis Clube Walhalla, campeão porto-alegrense de tênis, e campeão individual de tênis do Estado, de 1930 a 1943.
Segundo o cronista Drive, o presidente do A.T.C. promoveu,
uma lindíssima partida de tênis, num único set, entre o citado raquetista e o nosso vice-campeão Ennio Brenner. A pegada foi belíssima, finalizando com o resultado de 7x5, favorável ao campeão da Metrópole. Ennio atuou como nunca, jogou assombrosamente. Perdeu, sim, mas não desmereceu as gloriosas tradições do seu clube. A sua derrota ao enfrentar um adversário das possibilidades técnicas de Bruno Schuetz, acusando a contagem dos pontos a diferença mínima, é uma prova de que o nosso vice-campeão não é “sopa”. Os nossos parabéns ao jovem Ennio e ao Avenida.

Na gestão de Alcides Roth, durante a tarde esportiva de domingo, em 10.7.1932, foi homenageado o ex-presidente e sócio benemérito Eng. João Baptista Leggerini, dando o nome de “Pelouse Dr. Leggerini” a uma das quadras de tênis.  Finalizando o programa, houve um chá-dançante na sede, cujos melhoramentos foram festivamente inaugurados na ocasião.
______________________________________
Fontes:
Acervos fotográficos de José Antonio Brenner, José Augusto Roth, Maria de Lourdes Lang e Miriam Berao.
Arquivo pessoal
Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria – Hemeroteca
Diário do Interior, 3.4.1932 – domingo - p. 2
Diário do Interior, 22.6.1932 – quarta-feira – p. 4
Diário do Interior, 16.2.1934 – sexta-feira – p. 2
Diário do Interior, 6.3.1934 – terça-feira - p. 4
A.T.C.- Orgão do Avenida Tennis Club, edições de 25.2.2934, 28 de abril de 1934 e 26.5.1934.
Livro nº 1 de Atas do Avenida Tênis Clube..
Carlos Oscar Lang, um homem que nasceu e morreu como autêntico comandante.. In: Álbum do 1º Centenário de Santa Maria. Santa Maria, Livraria do Globo, 1958.


sábado, 15 de abril de 2017

Certidão de Confirmação de Peter Falkenberg

   No dia 14 de abril deste ano de 2017, completou 150 anos o mais antigo documento conhecido da Comunidade Evangélica de Confissão Luterana de Santa Maria, que fora fundada um ano antes, em 8 de abril de 1866, com a denominação de Deutsche Evangelische Gemeinde in Santa Maria da Boca do Monte – Comunidade Evangélica Alemã.
   Por ser conhecida na cidade como a “igreja dos alemães”, foi cruelmente atacada durante os movimentos antigermânicos, na época de 2ª Guerra Mundial. Em 19.8.1942, o templo e a casa paroquial foram depredados, e tudo o que continham – móveis, livros, registros, documentos – foram queimados na via pública. Foi transformado em cinzas o acervo documental referente a 76 anos de história.

Confirmations-Schein = Certidão de Confirmação
Por isso, torna-se importante a Certidão de Confirmação de Peter Falkenberg.


Confirmations-Schein
Psalm 112, 1,2

Wohl dem, der den Herrn fürchtet, der große Lust hat zu
seinen Geboten. Der Same wird  gewaltig  sein  auf  Erden,
das  Geschlecht  der  Frommen  wird  gesegnet  sein.
====================== 
Peter  Falkenberg,- ehelicher Sohn von  Johann  Carl  August
Falkenberg  und   Maria  Elisabetha  Ringel ,  –   erblinkte  das
Licht der Welt den 4ten März 1855 auf den  Vier Colonien  des
Munizipiums  São  Leopoldo.  -  Derselbe  ist  in  der  Christlichen
Religion  unterrichtet  und  am  heutigen  Tage  von  versammelten
Gemeinde confirmirt worden auf den heiligen Evangelischen Glauben.
Vla Santa Maria d. B. d. M. den 14ten April 1867.

H. A  Klein.
Evangel. Pastor.

 Tradução
Salmo 112 – 1,2
Feliz aquele que teme ao Senhor, que muito se compraz com
Seus mandamentos. A (sua) semente será poderosa sobre a terra,
a (sua) descendência de devotos será abençoada.
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Peter  Falkenberg, filho legítimo de  Johann  Carl  August
Falkenberg e de  Maria  Elisabetha  Ringel, veio  à luz do
mundo, em 4 de março de 1855, em  Quatro Colônias, no
Município  de  São  Leopoldo.   –   O  mesmo  é  educado
na religião cristã e no dia de hoje, perante a Comunidade
reunida, foi confirmado  na  sagrada  fé  evangélica.
Vila de Santa Maria da Boca do Monte, 14 de abril de 1867.

H. A. Klein
Pastor evangélico
 ______________________________________________________________ 
   O documento original pertence a Vera Falkenberg Boelhower Toniolo, neta de de Peter Falkenberg.

   Peter Falkenberg
Peter Falkenberg aos 36 anos.
   Nasceu em 4.3.1855, em Vier Colonien (Quatro Colônias), uma pequena área colonial alemã então pertencente ao Município de São Leopoldo. Atualmente, o local fica no Município de Campo Bom, 10 quilômetros ao norte do centro da cidade.
   Era filho de Johann Carl August Falkenberg e Maria Elisabetha Riegel (não Ringel, como está no documento). O pai nasceu em Neuruppin, cerca de 70 qiolômetros ao noroeste de Berlim, e veio ao Brasil como soldado para integrar os batalhões de estrangeiros, os chamados “Mercenários do Imperador”, tendo servido no Batalhão de Granadeiros.  Deu baixa, em 1929, e veio para Porto Alegre no veleiro da navegação costeira “Marquês de Viana”. Fixou-se como colono em Quatro Colônias e, em 1847, casou com  Maria Elisabetha Riegel. Ela nasceu em 1819, em Schmidthachenbach /Hunsrück, filha do imigrante Johann Riegel, chegado à Colônia Alemã de São Leopoldo, em 29.12.1825, no segundo ano da imigração.
 
Neuruppin junto ao Lago Ruppiner. Em destaque, as torres do mosteiro dominicano, construído em 1246.
   Peter Falkenberg foi batizado em Vier Colonien. Quando tinha 12 anos de idade, ele foi confirmado em Santa Maria, para onde a família se mudara.
A Confirmação de Peter foi celebrada em 14.4.1867, por Hugo Alexander Klein, primeiro Pastor da Comunidade Evangélica Alemã de Santa Maria, fundada no ano anterior, e que ainda não construíra sua igreja. É o mais antigo documento original da Comunidade que eu conheço, conservado por Vera Falkenberg Boelhouwer, neta de Peter Falkenberg.

   Casamento
   Em 5.11.1881, Peter casou com Amália Henriqueta Brenner, tia-avó do autor desta postagem.

Amalia Henriqueta Brenner Falkenberg,
em 1908, pouco antes de falecer.
   O casamento foi celebrado em 5.11.1881, na casa do pai da noiva, Peter Brenner, em suas terras, junto ao Vacacaí-Mirim, atual Bairro Quilômetro Dois. O celebrante foi o Pastor visitante Johann Georg Wittlinger, num período em que a Comunidade de Santa Maria ficou sem pastor por sete anos. O Pastor Wittlinger era da Comunidade de Nova Germânia, hoje Candelária.
Serviram de testemunhas Carlos Cassel e sua esposa Guilhermina Brenner Cassel, e também Henrique Pedro Scherer e sua esposa Anna Francisca.


Peter Fakenberg aos 51 anos.
  
   Peter Falkenberg era curtidor em Santa Maria. O curtume e a residência da família ficavam em frente à Praça Julio de Castilhos, hoje junto à esquina da Avenida N. Sra. das Dores com a Rua Motorista Mariano.
Amália faleceu em 8 de outubro de 1908, em Santa Maria, com 48 anos. Peter, então chamado Pedro, faleceu em 9 de novembro de 1921, com 66 anos.

   O casal gerou grande e importante descendência através dos filhos Pedro Martin, Jorge Albino, Carlos Alfredo, Guilherme, Felipe, Júlia, Carlota, Rodolfo e Josephina.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Coronel Niederauer - 190 anos

Neste 4 de abril de 2017, celebramos os 190 anos do nascimento de João Niederauer Sobrinho – o Coronel Niederauer.
Seus pais Philipp Leonhard Niederauer e Anna Catharina Diehl Niederauer eram imigrantes naturais do Rheinhessen, região do então Grão-Ducado de Hessen-Darmstadt, no atual estado da Renânia-Palatinado. Junto com outros membros da família, haviam chegado à Colônia Alemã de São Leopoldo, em 15.1.1826. Em setembro, integraram a caravana de pioneiros da Colônia Alemã de Três Forquilhas, hoje Itati, 6 quilômetros ao noroeste de Terra de Areia.
Poucos meses depois, ali nasceu o primeiro filho do casal, que foi batizado Johannes, nome de seu padrinho e tio, por isso, na idade adulta passou a ser chamado João Niederauer Sobrinho.
 
Registro de batismo no livro da Comunidade Evangélica de Três Forquilhas.
A terra era fértil e as colheitas foram abundantes, porém, sem escoamento para sua produção agrícola, a família de Philipp Niederauer deixou então Três Forquilhas. Entre 1830-31, estabeleceu-se em Dois Irmãos, onde nasceu Maria Luíza, minha bisavó materna.
Em 1840, o casal com suas três filhas mudaram-se para Santa Maria; Johannes  ficou em São Leopoldo estudando e, depois, em Porto Alegre, trabalhando. Somente em 1844, com 17 anos, ele juntou-se à família, em Santa Maria. A pequena povoação tinha pouco mais que 2 mil habitantes e, desde 1830, atraía famílias de alemães das antigas colônias, numa corrente migratória que não cessou durante a Guerra dos Farrapos (1835-45).
Militar e político
No período antecedente da Guerra contra Oribe e Rosas, Niederauer apresentou-se como voluntário e foi nomeado alferes do 1º Esquadrão do Corpo de Cavalaria da Guarda Nacional do distrito de Santa Maria. Tinha 23 anos.
Por sua participação naquela guerra, foi condecorado com a Medalha Campanha do Uruguai, em prata, com a efígie do Imperador d. Pedro II, que portava ao retornar, promovido a capitão (foto).
O jovem capitão Niederauer, 25 anos, então casou com sua prima Maria Catharina, em 21.9.1852, na pequena igreja católica situada no mesmo local onde, 70 anos depois, seria erguido um monumento em sua homenagem.
Em 1856, o colégio eleitoral da freguesia o escolheu como um dos eleitores provinciais incumbidos de eleger os deputados provinciais e gerais. O jovem capitão Niederauer, 29 anos, era um cidadão de prestígio em Santa Maria.
Voltou às lides militares, integrando o Exército de Observação (1857-58), estacionado em Alegrete, para vigiar a fronteira com os países platinos. Por essa razão não fez parte da 1ª Câmara Municipal, na instalação do novo município de Santa Maria, em 17.5.1958, emancipado de Cachoeira. 
Em 1860, quando tinha 33 anos, o governo imperial o promoveu a Tenente-Coronel. Foi eleito vereador da 2ª Câmara Municipal a qual presidiu por largos períodos.
Foi o mais votado para a 3ª Câmara Municipal, em 1864, o que lhe assegurava o cargo de presidente do legislativo e o poder executivo do município.
Mas não assumiu, pois, em nova incursão no Uruguai, comandou o 7º Corpo Provisório de Cavalaria, formado por santa-marienses, que tomou parte no cerco de Montevidéu.
Maria Catharina Niederauer aos 30 anos.
Detalhe de foto com seus 6 filhos, em fins de 1865.
Não voltou a Santa Maria, porque eclodira a Guerra da Tríplice Aliança, e o 7º Corpo marchou para o Paraguai sob o comando de Niederauer que, naquela campanha, enriqueceu com páginas de heroismo e bravura a História Militar Brasileira.
Em 18.5.1866, João Niederauer Sobrinho foi promovido a Coronel e nomeado Comandante Superior da Guarda Nacional de Santa Maria.
Reconhecido e admirado por seus superiores, estimado e respeitado por seus comandados, Niederauer recebeu as mais importantes ordens de mérito do Império: a Ordem da Rosa e a Imperial Ordem do Cruzeiro do Sul.
Medalhas de prata das Campanhas do Uruguai (1852 e 1864). 
Ordem  da Rosa e Imperal Ordem do Cruzeiro do Sul. 

Depois de quatorze combates e duas batalhas, o Coronel Niederauer faleceu, com 41 anos, em 13.12.1868, após as vitórias no Combate de Villeta e na Batalha do Avaí. Foi sepultado no cemitério de Villeta, 50 quilômetros ao sul de Assunção, onde jamais seus restos foram identificados.
Homenagens
Rua
Oito anos depois, em 1876, a Rua Dois de Julho, no centro de Santa Maria foi denominada Rua Coronel Niederauer.
Monumento
Monumento, há mais de quatro anos
sem a coroa de acantos e louros.
Nas comemorações do centenário da Independência, foi inaugurado, em 10.9.1922, o monumento a Niederauer, em bronze e granito, na extremidade sul da Av. Rio Branco, de frente para a Praça Saldanha Marinho. Obra do escultor português Rodolfo Pinto Couto, a herma e os ornatos foram fundidos em Florença.  Os ornatos de bronze foram furtados, ao longo do tempo. Com a colaboração do Gen. Décio Schons, comandante da “Brigada Niederauer” (2009-11), foram produzidas réplicas, em latão fundido, no Arsenal do Exército, em General Câmara.

Em 2012, durante as obras de revitalização da Av. Rio Branco, valiosa realização do Prefeito Cezar Schirmer, o monumento foi elevado para lhe dar o merecido destaque.
Lamentavelmente, foi então furtada a coroa de folhas de acantos (honestidade e pureza) e louros (distinção, glória, vitória), que circunscrevia a inscrição “PÁTRIA, HONRA E VALOR”. O furto ocorreu em dezembro de 2012 e, passados mais de quatro anos, não foi reposta uma réplica do éreo ornato.
O mais antigo e mais valioso monumento público da cidade, em homenagem ao nosso maior herói
militar – o Coronel João Niederauer Sobrinho – permanece vandalizado. Oxalá possamos vê-lo completo, nos 95 anos do monumento, que ocorrerá em 10 de setembro próximo.
Vila Militar
No centenário da morte do herói, em 1968, o Exército prestou-lhe homenagem dando a denominação de Vila Militar Coronel Niederauer ao extenso conjunto residencial militar com cerca de sete hectares, em Santa Maria.
Pórtico da Vila Militar Coronel Niederauer, em Santa Maria.

Denominação e estandarte históricos pela
 Portaria Ministerial nº 164, de 18.3.1992.


Brigada Niederauer
Em 1992, a 6ª Brigada de Infantaria Blindada recebeu a denominação histórica de “Brigada Niederauer” e o respectivo estandarte histórico, resultado do eficiente trabalho do saudoso Cel. Mário José de Menezes, delegado local da Academia de História Militar Terrestre do Brasil. 


Assim, o Exército prestou a devida homenagem à memória do heroico João Niederauer Sobrinho, personalidade maior da história militar regional.
A 6ª Brigada de Infantaria Blindada valorizou sua identidade, reverenciando dignamente nosso herói de guerra e ilustre cidadão. A denominação histórica é ostentada na fachada do seu quartel, patrimônio arquitetônico e referência marcante na paisagem urbana e na história da cidade, por isso merecedor de conservação e proteção por tombamento.
Quartel-General da 6ª Brigada de Infantaria Blindada - Brigada Niederauer".
O nome do patrono na fachada.


Programa comemorativo
O comandante da “Brigada Niederauer”, General Gionany Carrião de Freitas, programou vários eventos comemorativos, entre as quais, em 5 de abril, uma  solenidade cívica no monumento ao Cel. Niederauer, no centro de Santa Maria; no dia 6 de abril, no Quartel General da Brigada Niederauer, solenidade militar no pátio de formaturas e outras atividades.


A matéria desta postagem foi publicada na edição de hoje, 4.4.2017, no Diário de Santa Maria.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Edmundo Cardoso – 100 anos
O dia de hoje, 29 de janeiro de 2017, marca o centenário do nascimento de Edmundo Cardoso, um ilustre santa-mariense.
Ele nasceu em 29 de janeiro de 1917, filho de Etelvino Cardoso e de Regina Diehl Cardoso. O pai era tipógrafo-chefe do jornal Diário do Interior, instalado desde dezembro de 1915, no prédio que fora do Theatro Treze de Maio. A residência era contígua ao prédio do Diário do Interior, e o menino Edmundo, desde cedo, teve convivência com as atividades do jornal, onde começou a trabalhar aos 15 anos de idade, exercendo depois várias funções até seu fechamento, em 1939.
Edmundo Cardoso exerceu várias atividades no âmbito sociocultural da cidade: fundador da sociedade literária Atheneu Graça Aranha, do primeiro Centro Cultural, do Clube de Inglês e do primeiro Clube de Cinema, participou também da fundação da União da Família Forense em Santa Maria e da Associação dos Funcionários da Justiça do Rio Grande do Sul, criada em 1969, tendo sido seu secretário e presidente.
Mas o teatro foi a arte que mais o atraiu, participando, desde muito jovem, de grupos de teatro amador. Tinha 21 anos quando atuou na peça Na Bocca do Monte, escrita por Rubens Belém, caracterizada pela criação de tipos e situações de épocas da cidade, com sátira social - a chamada comédia de costumes. A estreia ocorreu em 18 de novembro de 1938, no Cine Independência, e teve muito sucesso, sendo reapresentada mais três vezes.
Trecho da notícia no Diario do Interior, edição de sábado, 5.11.1938, 1ª pág.
Hemeroteca do Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria

A comédia continha danças, cujo corpo de baile era ensaiado pela professora Edna Mey Budin. Esse convívio de ensaios e apresentações certamente aproximou os jovens; Edmundo e Edna casaram em 1943.
Edmundo Cardoso e Edna Mey Budin Cardoso, falecida em 1979. [acervo CMEC]

Escola de Teatro Lepoldo Fróes
Naquele mesmo ano de 1943, com Edna e outros atores amadores, Edmundo Cardoso funda a Escola de Teatro Leopoldo Fróes, homenageando, na denominação, o ator brasileiro reconhecido como de maior expressão, nas primeiras décadas do século XX. A Escola, que estreou em 24.4.1944, com a comédia Deus lhe pague, de Joracy Camargo, atuou durante 40 anos em Santa Maria e em outras cidades do interior, como Pelotas, Cachoeira do Sul, Santa Cruz do Sul, Alegrete e São Pedro do Sul. Em Porto Alegre, participou de três temporadas teatrais, no Theatro São Pedro, nos anos 50 e 60, um acontecimento inédito para um grupo de teatro amador do interior.
Em 2003, a Câmara Municipal de Vereadores de Santa Maria, pelo Decreto Legislativo nº04/2003, criou a Medalha de Mérito Teatral Edmundo Cardoso. A distinção, concedida a pessoas ou entidades que se destacam em favor do teatro no município, foi assim denominada em reconhecimento à produtiva trajetória, por mais de quatro décadas, do teatrólogo santa-mariense.
Edmundo com Therezinha de Jesus Pires Santos, com quem casou em 1985, em segundas núpcias. A foto registra a presença do casal em AB-Galeria de Arte, na vernissage de uma exposição, em 11.9.1986, organizada por Antonieta Brenner. A Prof.ª Therezinha é coordenadora da Casa de Memória Edmundo Cardoso. [foto: J.A.Brenner]

Atividades literárias
Edmundo foi cronista e colaborador dos jornais A Razão, O Expresso, Diário do Estado e Correio do Povo. Foi o organizador do livro USM-A nova Universidade e Coletânea das Leis Municipais de Santa Maria 1892-1940 (9 vol.). Publicou Um momento da vida do Município de Santa Maria, ref. ao 3º aniversário do Estado Novo, e História da Comarca de Santa Maria 1878-1978.
Foi eleito membro da Academia Rio-Grandense de Letras, em 1976.
Patrono da Cadeira nº 24 da Academia Santa-Mariense de Letras-ASL, Edmundo Cardoso foi tema do Sarau Literário dessa Academia, em 7.11.2016.

Casa de Memória Edmundo Cardoso
Gilda May Cardoso Santos
coord. substituta da Casa de Memória.
Além das atividades cênicas, outra faceta de Edmundo que deixou um importante legado cultural, foi o colecionamento de bens materiais que interessam à memória da cidade. Desde jovem e durante toda sua vida, ele guardou livros, revistas, jornais, documentos, fotografias e objetos que compõem o riquíssimo acervo da Casa de Memória Edmundo Cardoso-CMEC. Essa instituição foi criada em 2002, por sua viúva, Therezinha de Jesus Pires Santos, e por sua filha, Gilda May Cardoso Santos, logo após a morte do patrono, para cumprir sua vontade, homenageá-lo, consolidar e ampliar sua obra.
Associação dos Amigos
Em 24.4.2015, foi fundada a Associação dos Amigos da Casa de Memória Edmundo Cardoso-AACMEC, para suplementação de carências administrativas, técnicas e culturais da CMEC. Entre outras ações, a Associação registra, através de lei de incentivo à cultura, a aquisição de equipamentos para o laboratório de digitalização já instalado, onde estão sendo digitalizados antigos jornais do acervo.
Casa de Memória Edmundo Cardoso
foto J.A.Brenner
A sede é a própria Casa de Memória, na Rua Pinheiro Machado nº 2712, um prédio centenário construído em 1911 para residência de Constantino Gomes. Em 1944, Edmundo comprou a casa para moradia de sua família, onde, ao longo de quase 58 anos, ampliou seu acervo e onde viveu até seus últimos dias.
Homenagens
Feira do Livro
Em 2001, Edmundo Cardoso foi escolhido Patrono da Feira do Livro de Santa Maria, a mais valiosa homenagem literária da cidade. Encontrava-se então muito doente e faleceu no final do ano seguinte, em 5.12.2002, um mês antes de completar 86 anos.
Logradouro
Herma de Leopoldo Fróes,
há anos desaprumada.
foto J.A.Brenner 24.7.2013
A lei municipal 4669, de 2003, denominou "Largo Edmundo Cardoso" o logradouro em frente ao Theatro Treze de Maio, no lado leste da Praça Saldanha Marinho. Nesse espaço, por ocasião do jubileu de prata da Escola de Teatro Leopoldo Fróes, em 1968, Edmundo e demais dirigentes promveram a instalação da herma do patrono. O monumento em bronze e granito, doado pelo empresário Salvador Isaia, encontra-se há anos em progressiva inclinação, por ação das raízes de uma árvore indevidamente plantada a curta distância. Poderá tombar devido a uma "raiz iconoclasta", como adjetivou Antonio Isaia, referindo-se a uma caso idêntico, ocorrido com o monumento ao Cel. Niederauer.
Visita
Na manhã deste domingo, data do centenário de Edmundo Cardoso, familiares e associados da AACMEC visitaram  seu jazigo, quando foram proferidas palavras de saudade, afeto e reconhecimento. As pessoa presentes colocaram rosas nas floreiras do jazigo.

Um documento epigráfico, afixado no túmulo, reproduz  um trecho do discurso de posse de Edmundo Cardoso, em 1976, na Academia Rio-Grandense de Letras, na cadeira nº 28, que tem João Belém como patrono. Revela o intenso amor de Edmundo por sua terra natal, que o tornou o valoroso "guardião de memórias" de Santa Maria.

  [foto Gaspar Miotto]

"Pertenço à minha cidade e ela me pertence. De tal modo somos unidos e nos compreendemos, e de tal jeito nos amamos, que tudo o que faço, tudo o que penso, tudo o que sonho está ligado,  docemente ligado à minha Santa Maria da Boca do Monte."


sábado, 7 de janeiro de 2017

Carmen Paz - campeã brasileira de tênis



Carmen Brenner Paz
   Carmen Brenner Paz, minha prima-irmã, completa hoje 94 anos de idade.
   A maior glória do passado do tênis santa-mariense, Carmen Brenner Paz, nasceu em Santa Maria, em 7 de janeiro de 1923. Desde a primeira infância, seu ambiente familiar era ligado ao tênis. Seu pai, o cirurgião-dentista Altino de Figueiredo Paz, figurava entre os primeiros sócios homens do Avenida Tênis Clube, no ano de fundação, em 1917, então na Avenida Rio Branco. 
Quando o clube estava na Praça da República, onde hoje está o Corpo de Bombeiros, sua mãe, Edith Brenner Paz, praticava o esporte, e a menina Carmen juntava bolas para ela, no início dos anos 30. Seus três irmãos eram hábeis tenistas. O mais velho, Flávio Paz, aos 15 anos, em 1933, era chamado de “Menino de Ouro” do tênis. Naquele mesmo ano, seu tio Ennio Brenner – meu pai – tornara-se o campeão do Avenida Tênis Clube. 
Da esquerda: Arthur, Carlos Horácio,
Carmen e Flávio Paz.

   Quando crianças, Carmen e seus irmãos improvisavam, no quintal de sua casa, uma rede feita com sacos e jogavam tênis com raquetes de madeira. Com 15 anos, em 1938, ela associou-se ao Avenida Tênis Clube. Após pouco mais de um ano jogando tênis com uma raquete de verdade, Carmen foi inscrita no Torneio Aberto de Tênis, realizado pela Sociedade Juvenil, em Porto Alegre, em junho de 1939. Tinha 16 anos e sagrou-se a campeã do torneio. Foi o primeiro título da gloriosa carreira tenística de Carmen Paz. Jamais recebeu treinamento de técnicos profissionais. Suas qualidades eram inatas, como eram em vários tenistas de sua família. Atleta de grande fibra, dotada de pertinácia e força de vontade,  dedicava-se intensamente nos jogos, mesmo em recreação. De temperamento firme e enérgico, infundia essa energia no seu belo estilo de jogo incisivo e harmonioso. Agia com modéstia fora das quadras, mas transformava-se ao empunhar a raquete, demonstrando vigor e entusiasmo, na época excepcionais numa atleta mulher. Sua atitude era impecável, mesmo nos lances mais infelizes, quando comportava-se de forma exemplar.
A Gazeta Esportiva de Curitiba, edição de 25.8.1953, notocia a conquista de Carmen.


 Entre seus incontáveis títulos e conquistas, alguns merecem destaque especial.
Venceu por mais de 10 anos consecutivos o Campeonato Aberto do Moinhos de Vento, em Porto Alegre, de 1945 a 1954.  Foi campeã individual do Estado, por vários anos, sagrando-se Penta-campeã Estadual de Tênis, em 1953.  Em 1949, tornou-se Campeã Brasileira por equipe.  No ano seguinte, 1950, conquistou o maior título do tênis no país: Campeã Brasileira.  Não competiu em 1952, mas repetiu a façanha em 1953: Bicampeã Brasileira de Tênis.
As notícias então destacavam que Carmen Paz era indiscutivelmente a atleta que maiores e mais notáveis glórias esportivas havia trazido para Santa Maria.
A grande tenista do Avenida Tênis Clube conquistara a totalidade dos títulos disputados em Santa Maria, no Estado e no País, tendo ainda, naquele ano, conquistado, pela segunda vez, o título máximo no certame brasileiro de tênis.
Carmen Brenner Paz, em 1955, transferiu-se, com sua família para Porto Alegre.
Em 1986, o Avenida Tênis Clube prestou homenagem à sua grande atleta, inscrita em placa de bronze afixada em uma de suas quadras.

Nos 150 anos de emancipação política de Santa Maria, em 2008, Carmen foi agraciada com a medalha do "Mérito Esportivo".

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

150 anos da SOCEPE desde o Deutscher Hilfsverein

A migração de alemães e descendentes para Santa Maria, desde as antigas colônias da região de São Leopoldo, começou no início da década de 1830 e continuou durante a Guerra dos Farrapos. Na florescente povoação santa-mariense, os alemães que, durante o conflito, garantiram as atividades de comércio e produção, mantiveram sua hegemonia em tempos de paz. Na época de sua emancipação política, em 1858, Santa Maria era visivelmente alemã em quase todas as atividades: comerciantes, alfaiates, curtidores, lombilheiros, ferreiros, pedreiros, ourives, sapateiros, marceneiros etc.
Isso atraiu, cada vez mais, a migração para Santa Maria, desde aquelas colônias, onde as famílias aumentavam e as terras escasseavam. Grupos familiares, às vezes numerosos, deslocavam-se para a vila santa-mariense e para a recém-fundada Colônia do Pinhal, hoje Itaara.
Deutscher Hilfsverein
A forte presença germânica em Santa Maria, em meados do século 19, e o tradicional associativismo da etnia geraram a organização de sociedades. Em 1866, foram fundadas a Deutsche Evangelische Gemeinde (Comunidade Evangélica Alemã) e o Deutscher Hilfsverein. Essa sociedade, mais tarde também denominada Sociedade Beneficente Alemã, foi criada para amparar os imigrantes recém-chegados a Santa Maria ou em trânsito, numa época de intensa imigração.
A fundação e os 18 fundadores
A ata de fundação e as seguintes, nos primeiros 47 anos da sociedade, não foram conservadas, mas o extenso noticiário no Diario do Interior e em A Razão, em 1936, referente aos 70 anos de fundação, contém valiosas informações.
Otto Brinckmann
Presidente fundador
 A comemoração iniciou com a celebração, pelo Pastor Daniel Kolfhaus, de um culto memorial na Igreja Evangélica Alemã. Depois, na sede social à Rua Venâncio Aires, houve uma sessão solene, presidida pelo sócio mais antigo, Ildefonso Brenner, 74 anos, que passou a palavra ao jornalista José Garibaldi Filizolla, orador do evento, em português. No discurso, ele disse que havia 70 anos, em 28.10.1866, 18 alemães e descendentes, numa nobre manifestação de solidariedade humana, fundaram uma agremiação “com o elevado propósito de amparar os sócios, moral e materialmente, quando a situação o exigisse, bem como aos demais patrícios e seus descendentes que necessitassem de amparo”. Prestou homenagem aos fundadores, enunciando seus nomes “com o maior respeito e saudade, todos falecidos”, a seguir citados com seus cargos na primeira diretoria:

    Otto Brinckmann (presidente), Franz Weinmann (vice-presidente), Wilhelm Fischer (secretário), Peter Cassel (tesoureiro), Nicolaus Ehlers, Philipp Jacob Schirmer, Jacob Maurer e Jacob Krebs (diretores); e mais 10 fundadores: Abraham Cassel, Augusto Morsbach, Carlos Lampert, Heinrich Friedrich Eggers, Johann Heinrich Druck, Miguel Adamy, Nicolau Becker, Pedro Weinmann, Peter Brenner e Theodoro Weber.
Outros dirigentes fundadores. Desde a esquerda: Franz Weinmann, vice-presidente;
Wilhelm Fischer, secretário; Peter Cassel, tesoureiro; Philipp Jacob Schirmer, diretor
      Logo depois, discursando em alemão, o Pastor Kolfhaus destacou a atividade e dedicação dos fundadores pelo progresso da sociedade e apresentou um histórico, referindo-se aos benefícios prestados aos sócios e à coletividade. Concluiu incitando os germânicos locais a, unidos, “propugnarem pelo progresso do Deutscher Hilfsverein, a exemplo do que por ele fizeram os seus antepassados”.

O discurso de Filizolla incluiu a valiosa informação de que “a sessão de fundação teve lugar na casa do Sr. Otto Brinckmann, onde é hoje a residência do seu genro, o Sr. Candido Souza.” Era um casarão na Rua do Comércio, hoje Segunda Quadra da Rua Doutor Bozano. Em 1950, a propriedade foi vendida a Reinoldo Emilio Block, que ali mandou construir o Edifício Block, nº 1058.
A seta indica a casa de Otto Brinckmann, local da fundação do Deutscher Hilfsverein..
Detalhe de foto de Bortolo Achutti, na 2ª metade dos anos 1940.
Em 1936, estava disponível a documentação referente a esses dados, inclusive a ata de fundação, pois quatro anos antes, na inauguração da sede, o orador João Geiger Bonuma citara o “velho livro da sociedade [...] no cursivo caprichoso de Guilherme Fischer [...]”
Por essas razões, causa estranheza a relação de 71 fundadores em História do Município de Santa Maria (1933), cujo autor, João Belém, certamente teve acesso à mesma documentação. A hipótese mais provável é que, feita a ata, após a assinatura do presidente, novos associados passaram a assiná-la, sem apresentá-la antes aos fundadores.
Mais uma vez se revela a importância das hemerotecas do Arquivo Histórico Municipal e da Casa de Memória Edmundo Cardoso ante o lamentável extravio dos arquivos institucionais.
Carl Ferdinand Otto Brinckmann
Esse era o nome completo do primeiro presidente, sem dúvida o líder da fundação do Deutscher Hilfsverein – hoje SOCEPE. Além de encabeçar a diretoria, a reunião fundamental foi realizada em sua casa.
Ele veio ao Brasil, em 1851, com 25 anos de idade, como capitão de artilharia entre os cerca de 2000 militares do exército prussiano, contratados pelo Império Brasileiro para a Guerra contra Oribe e Rosas. Era, portanto, um Brummer, apelido pelo qual esses militares ficaram conhecidos. Depois de licenciado, estabeleceu-se em Santa Maria, supostamente em 1855, como agrimensor, ofício que conhecia, por ser oficial artilheiro. É de autoria de Brinckmann um dos mais antigos mapas do traçado urbano da cidade, datado de 1861.
Faleceu em 4.1.1903 e foi sepultado no Cemitério Evangélico Alemão, hoje incluído no Cemitério Municipal. A SOCEPE efetuou, recentemente, a restauração de seu túmulo onde afixou uma lápide em homenagem aos fundadores, citando os membros da primeira diretoria.
Transformações – SOCEPE
Anos depois, a Sociedade Beneficente Alemã tornou-se de amparo mútuo. Até 1939, mantinha e abrigava, no salão do segundo pavimento, o Colégio Brasileiro-Alemão e no pavimento inferior, o restaurante da sociedade.
Sede do Deutscher Hilfsverein, Sociedade Beneficente Alemã,depois Sociedade
Concórdia, demolida em 1982. No local,hoje está a sede central da Socepe. 
Em decorrência da declaração de guerra à Alemanha, em 1942, a sociedade foi desativada e o salão requisitado para uso do Círculo Militar. Anos após o término da guerra, alguns sócios mais antigos, num trabalho demorado e pertinaz, conseguiram a devolução do patrimônio. Entretanto, a Sociedade teve dificuldades para se reerguer, embora o restaurante, que funcionava terceirizado, fosse, durante largo período, o melhor da cidade. O nome fora mudado para Sociedade Concórdia, denominação adotada, durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, por várias outras sociedades de matriz cultural alemã, no país. Concórdia é acordo, paz, harmonia de vontades e opiniões.
Em 7 de julho de 1966, um século após a fundação, reuniram-se em assembleia geral os associados da Sociedade Concórdia e do Clube de Caça e Pesca de Santa Maria que, por maioria absoluta, aprovaram sua fusão. Ambas eram presididas por Horst Oscar Lippold, o que favoreceu a aceitação da proposta.
Surgia, assim, a Sociedade Concórdia Caça e Pesca, o grande clube que conhecemos pela sigla SOCEPE, com sede central no mesmo antigo endereço da Rua Venâncio Aires nº1596 e sede campestre em Itaara, com área de 50 hectares.
150 anos
Na assembleia geral de 29.7.2013, convidado pelo então presidente João Carlos Provensi e pelo patrono Horst Lippold, apresentei a justificativa para que a data de fundação do Deutscher Hilfsverein fosse adotada como aniversário da SOCEPE.
A assembleia aprovou a proposta por unanimidade e, assim, a SOCEPE, a mais antiga sociedade de
Santa Maria e uma das mais antigas do Estado, ostenta, com justo orgulho, em sua identidade visual, o ano de sua fundação, e neste 28 de outubro de 2016, comemora seus 150 anos de existência.
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Nota - A matéria desta postagem foi publicada no jornal A Razão, de S. Maria, na edição de 29.10.2016
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Fontes:
Arquivo Histórico Municipal de S. Maria: Diario do Interior, ed. 27.11.1936 e 1.12.1936.  A Razão, ed. 1.12.1936.
Arquivo pessoal
Casa de Memória Edmundo Cardoso.
Revista Commemorativa do Centenario de Santa Maria, 1914.