sábado, 15 de abril de 2017

Certidão de Confirmação de Peter Falkenberg

   No dia 14 de abril deste ano de 2017, completou 150 anos o mais antigo documento conhecido da Comunidade Evangélica de Confissão Luterana de Santa Maria, que fora fundada um ano antes, em 8 de abril de 1866, com a denominação de Deutsche Evangelische Gemeinde in Santa Maria da Boca do Monte – Comunidade Evangélica Alemã.
   Por ser conhecida na cidade como a “igreja dos alemães”, foi cruelmente atacada durante os movimentos antigermânicos, na época de 2ª Guerra Mundial. Em 19.8.1942, o templo e a casa paroquial foram depredados, e tudo o que continham – móveis, livros, registros, documentos – foram queimados na via pública. Foi transformado em cinzas o acervo documental referente a 76 anos de história.

Confirmations-Schein = Certidão de Confirmação
Por isso, torna-se importante a Certidão de Confirmação de Peter Falkenberg.


Confirmations-Schein
Psalm 112, 1,2

Wohl dem, der den Herrn fürchtet, der große Lust hat zu
seinen Geboten. Der Same wird  gewaltig  sein  auf  Erden,
das  Geschlecht  der  Frommen  wird  gesegnet  sein.
====================== 
Peter  Falkenberg,- ehelicher Sohn von  Johann  Carl  August
Falkenberg  und   Maria  Elisabetha  Ringel ,  –   erblinkte  das
Licht der Welt den 4ten März 1855 auf den  Vier Colonien  des
Munizipiums  São  Leopoldo.  -  Derselbe  ist  in  der  Christlichen
Religion  unterrichtet  und  am  heutigen  Tage  von  versammelten
Gemeinde confirmirt worden auf den heiligen Evangelischen Glauben.
Vla Santa Maria d. B. d. M. den 14ten April 1867.

H. A  Klein.
Evangel. Pastor.

 Tradução
Salmo 112 – 1,2
Feliz aquele que teme ao Senhor, que muito se compraz com
Seus mandamentos. A (sua) semente será poderosa sobre a terra,
a (sua) descendência de devotos será abençoada.
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Peter  Falkenberg, filho legítimo de  Johann  Carl  August
Falkenberg e de  Maria  Elisabetha  Ringel, veio  à luz do
mundo, em 4 de março de 1855, em  Quatro Colônias, no
Município  de  São  Leopoldo.   –   O  mesmo  é  educado
na religião cristã e no dia de hoje, perante a Comunidade
reunida, foi confirmado  na  sagrada  fé  evangélica.
Vila de Santa Maria da Boca do Monte, 14 de abril de 1867.

H. A. Klein
Pastor evangélico
 ______________________________________________________________ 
   O documento original pertence a Vera Falkenberg Boelhower Toniolo, neta de de Peter Falkenberg.

   Peter Falkenberg
Peter Falkenberg aos 36 anos.
   Nasceu em 4.3.1855, em Vier Colonien (Quatro Colônias), uma pequena área colonial alemã então pertencente ao Município de São Leopoldo. Atualmente, o local fica no Município de Campo Bom, 10 quilômetros ao norte do centro da cidade.
   Era filho de Johann Carl August Falkenberg e Maria Elisabetha Riegel (não Ringel, como está no documento). O pai nasceu em Neuruppin, cerca de 70 qiolômetros ao noroeste de Berlim, e veio ao Brasil como soldado para integrar os batalhões de estrangeiros, os chamados “Mercenários do Imperador”, tendo servido no Batalhão de Granadeiros.  Deu baixa, em 1929, e veio para Porto Alegre no veleiro da navegação costeira “Marquês de Viana”. Fixou-se como colono em Quatro Colônias e, em 1847, casou com  Maria Elisabetha Riegel. Ela nasceu em 1819, em Schmidthachenbach /Hunsrück, filha do imigrante Johann Riegel, chegado à Colônia Alemã de São Leopoldo, em 29.12.1825, no segundo ano da imigração.
 
Neuruppin junto ao Lago Ruppiner. Em destaque, as torres do mosteiro dominicano, construído em 1246.
   Peter Falkenberg foi batizado em Vier Colonien. Quando tinha 12 anos de idade, ele foi confirmado em Santa Maria, para onde a família se mudara.
A Confirmação de Peter foi celebrada em 14.4.1867, por Hugo Alexander Klein, primeiro Pastor da Comunidade Evangélica Alemã de Santa Maria, fundada no ano anterior, e que ainda não construíra sua igreja. É o mais antigo documento original da Comunidade que eu conheço, conservado por Vera Falkenberg Boelhouwer, neta de Peter Falkenberg.

   Casamento
   Em 5.11.1881, Peter casou com Amália Henriqueta Brenner, tia-avó do autor desta postagem.

Amalia Henriqueta Brenner Falkenberg,
em 1908, pouco antes de falecer.
   O casamento foi celebrado em 5.11.1881, na casa do pai da noiva, Peter Brenner, em suas terras, junto ao Vacacaí-Mirim, atual Bairro Quilômetro Dois. O celebrante foi o Pastor visitante Johann Georg Wittlinger, num período em que a Comunidade de Santa Maria ficou sem pastor por sete anos. O Pastor Wittlinger era da Comunidade de Nova Germânia, hoje Candelária.
Serviram de testemunhas Carlos Cassel e sua esposa Guilhermina Brenner Cassel, e também Henrique Pedro Scherer e sua esposa Anna Francisca.


Peter Fakenberg aos 51 anos.
  
   Peter Falkenberg era curtidor em Santa Maria. O curtume e a residência da família ficavam em frente à Praça Julio de Castilhos, hoje junto à esquina da Avenida N. Sra. das Dores com a Rua Motorista Mariano.
Amália faleceu em 8 de outubro de 1908, em Santa Maria, com 48 anos. Peter, então chamado Pedro, faleceu em 9 de novembro de 1921, com 66 anos.

   O casal gerou grande e importante descendência através dos filhos Pedro Martin, Jorge Albino, Carlos Alfredo, Guilherme, Felipe, Júlia, Carlota, Rodolfo e Josephina.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Coronel Niederauer - 190 anos

Neste 4 de abril de 2017, celebramos os 190 anos do nascimento de João Niederauer Sobrinho – o Coronel Niederauer.
Seus pais Philipp Leonhard Niederauer e Anna Catharina Diehl Niederauer eram imigrantes naturais do Rheinhessen, região do então Grão-Ducado de Hessen-Darmstadt, no atual estado da Renânia-Palatinado. Junto com outros membros da família, haviam chegado à Colônia Alemã de São Leopoldo, em 15.1.1826. Em setembro, integraram a caravana de pioneiros da Colônia Alemã de Três Forquilhas, hoje Itati, 6 quilômetros ao noroeste de Terra de Areia.
Poucos meses depois, ali nasceu o primeiro filho do casal, que foi batizado Johannes, nome de seu padrinho e tio, por isso, na idade adulta passou a ser chamado João Niederauer Sobrinho.
 
Registro de batismo no livro da Comunidade Evangélica de Três Forquilhas.
A terra era fértil e as colheitas foram abundantes, porém, sem escoamento para sua produção agrícola, a família de Philipp Niederauer deixou então Três Forquilhas. Entre 1830-31, estabeleceu-se em Dois Irmãos, onde nasceu Maria Luíza, minha bisavó materna.
Em 1840, o casal com suas três filhas mudaram-se para Santa Maria; Johannes  ficou em São Leopoldo estudando e, depois, em Porto Alegre, trabalhando. Somente em 1844, com 17 anos, ele juntou-se à família, em Santa Maria. A pequena povoação tinha pouco mais que 2 mil habitantes e, desde 1830, atraía famílias de alemães das antigas colônias, numa corrente migratória que não cessou durante a Guerra dos Farrapos (1835-45).
Militar e político
No período antecedente da Guerra contra Oribe e Rosas, Niederauer apresentou-se como voluntário e foi nomeado alferes do 1º Esquadrão do Corpo de Cavalaria da Guarda Nacional do distrito de Santa Maria. Tinha 23 anos.
Por sua participação naquela guerra, foi condecorado com a Medalha Campanha do Uruguai, em prata, com a efígie do Imperador d. Pedro II, que portava ao retornar, promovido a capitão (foto).
O jovem capitão Niederauer, 25 anos, então casou com sua prima Maria Catharina, em 21.9.1852, na pequena igreja católica situada no mesmo local onde, 70 anos depois, seria erguido um monumento em sua homenagem.
Em 1856, o colégio eleitoral da freguesia o escolheu como um dos eleitores provinciais incumbidos de eleger os deputados provinciais e gerais. O jovem capitão Niederauer, 29 anos, era um cidadão de prestígio em Santa Maria.
Voltou às lides militares, integrando o Exército de Observação (1857-58), estacionado em Alegrete, para vigiar a fronteira com os países platinos. Por essa razão não fez parte da 1ª Câmara Municipal, na instalação do novo município de Santa Maria, em 17.5.1958, emancipado de Cachoeira. 
Em 1860, quando tinha 33 anos, o governo imperial o promoveu a Tenente-Coronel. Foi eleito vereador da 2ª Câmara Municipal a qual presidiu por largos períodos.
Foi o mais votado para a 3ª Câmara Municipal, em 1864, o que lhe assegurava o cargo de presidente do legislativo e o poder executivo do município.
Mas não assumiu, pois, em nova incursão no Uruguai, comandou o 7º Corpo Provisório de Cavalaria, formado por santa-marienses, que tomou parte no cerco de Montevidéu.
Maria Catharina Niederauer aos 30 anos.
Detalhe de foto com seus 6 filhos, em fins de 1865.
Não voltou a Santa Maria, porque eclodira a Guerra da Tríplice Aliança, e o 7º Corpo marchou para o Paraguai sob o comando de Niederauer que, naquela campanha, enriqueceu com páginas de heroismo e bravura a História Militar Brasileira.
Em 18.5.1866, João Niederauer Sobrinho foi promovido a Coronel e nomeado Comandante Superior da Guarda Nacional de Santa Maria.
Reconhecido e admirado por seus superiores, estimado e respeitado por seus comandados, Niederauer recebeu as mais importantes ordens de mérito do Império: a Ordem da Rosa e a Imperial Ordem do Cruzeiro do Sul.
Medalhas de prata das Campanhas do Uruguai (1852 e 1864). 
Ordem  da Rosa e Imperal Ordem do Cruzeiro do Sul. 

Depois de quatorze combates e duas batalhas, o Coronel Niederauer faleceu, com 41 anos, em 13.12.1868, após as vitórias no Combate de Villeta e na Batalha do Avaí. Foi sepultado no cemitério de Villeta, 50 quilômetros ao sul de Assunção, onde jamais seus restos foram identificados.
Homenagens
Rua
Oito anos depois, em 1876, a Rua Dois de Julho, no centro de Santa Maria foi denominada Rua Coronel Niederauer.
Monumento
Monumento, há mais de quatro anos
sem a coroa de acantos e louros.
Nas comemorações do centenário da Independência, foi inaugurado, em 10.9.1922, o monumento a Niederauer, em bronze e granito, na extremidade sul da Av. Rio Branco, de frente para a Praça Saldanha Marinho. Obra do escultor português Rodolfo Pinto Couto, a herma e os ornatos foram fundidos em Florença.  Os ornatos de bronze foram furtados, ao longo do tempo. Com a colaboração do Gen. Décio Schons, comandante da “Brigada Niederauer” (2009-11), foram produzidas réplicas, em latão fundido, no Arsenal do Exército, em General Câmara.

Em 2012, durante as obras de revitalização da Av. Rio Branco, valiosa realização do Prefeito Cezar Schirmer, o monumento foi elevado para lhe dar o merecido destaque.
Lamentavelmente, foi então furtada a coroa de folhas de acantos (honestidade e pureza) e louros (distinção, glória, vitória), que circunscrevia a inscrição “PÁTRIA, HONRA E VALOR”. O furto ocorreu em dezembro de 2012 e, passados mais de quatro anos, não foi reposta uma réplica do éreo ornato.
O mais antigo e mais valioso monumento público da cidade, em homenagem ao nosso maior herói
militar – o Coronel João Niederauer Sobrinho – permanece vandalizado. Oxalá possamos vê-lo completo, nos 95 anos do monumento, que ocorrerá em 10 de setembro próximo.
Vila Militar
No centenário da morte do herói, em 1968, o Exército prestou-lhe homenagem dando a denominação de Vila Militar Coronel Niederauer ao extenso conjunto residencial militar com cerca de sete hectares, em Santa Maria.
Pórtico da Vila Militar Coronel Niederauer, em Santa Maria.

Denominação e estandarte históricos pela
 Portaria Ministerial nº 164, de 18.3.1992.


Brigada Niederauer
Em 1992, a 6ª Brigada de Infantaria Blindada recebeu a denominação histórica de “Brigada Niederauer” e o respectivo estandarte histórico, resultado do eficiente trabalho do saudoso Cel. Mário José de Menezes, delegado local da Academia de História Militar Terrestre do Brasil. 


Assim, o Exército prestou a devida homenagem à memória do heroico João Niederauer Sobrinho, personalidade maior da história militar regional.
A 6ª Brigada de Infantaria Blindada valorizou sua identidade, reverenciando dignamente nosso herói de guerra e ilustre cidadão. A denominação histórica é ostentada na fachada do seu quartel, patrimônio arquitetônico e referência marcante na paisagem urbana e na história da cidade, por isso merecedor de conservação e proteção por tombamento.
Quartel-General da 6ª Brigada de Infantaria Blindada - Brigada Niederauer".
O nome do patrono na fachada.


Programa comemorativo
O comandante da “Brigada Niederauer”, General Gionany Carrião de Freitas, programou vários eventos comemorativos, entre as quais, em 5 de abril, uma  solenidade cívica no monumento ao Cel. Niederauer, no centro de Santa Maria; no dia 6 de abril, no Quartel General da Brigada Niederauer, solenidade militar no pátio de formaturas e outras atividades.


A matéria desta postagem foi publicada na edição de hoje, 4.4.2017, no Diário de Santa Maria.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Edmundo Cardoso – 100 anos
O dia de hoje, 29 de janeiro de 2017, marca o centenário do nascimento de Edmundo Cardoso, um ilustre santa-mariense.
Ele nasceu em 29 de janeiro de 1917, filho de Etelvino Cardoso e de Regina Diehl Cardoso. O pai era tipógrafo-chefe do jornal Diário do Interior, instalado desde dezembro de 1915, no prédio que fora do Theatro Treze de Maio. A residência era contígua ao prédio do Diário do Interior, e o menino Edmundo, desde cedo, teve convivência com as atividades do jornal, onde começou a trabalhar aos 15 anos de idade, exercendo depois várias funções até seu fechamento, em 1939.
Edmundo Cardoso exerceu várias atividades no âmbito sociocultural da cidade: fundador da sociedade literária Atheneu Graça Aranha, do primeiro Centro Cultural, do Clube de Inglês e do primeiro Clube de Cinema, participou também da fundação da União da Família Forense em Santa Maria e da Associação dos Funcionários da Justiça do Rio Grande do Sul, criada em 1969, tendo sido seu secretário e presidente.
Mas o teatro foi a arte que mais o atraiu, participando, desde muito jovem, de grupos de teatro amador. Tinha 21 anos quando atuou na peça Na Bocca do Monte, escrita por Rubens Belém, caracterizada pela criação de tipos e situações de épocas da cidade, com sátira social - a chamada comédia de costumes. A estreia ocorreu em 18 de novembro de 1938, no Cine Independência, e teve muito sucesso, sendo reapresentada mais três vezes.
Trecho da notícia no Diario do Interior, edição de sábado, 5.11.1938, 1ª pág.
Hemeroteca do Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria

A comédia continha danças, cujo corpo de baile era ensaiado pela professora Edna Mey Budin. Esse convívio de ensaios e apresentações certamente aproximou os jovens; Edmundo e Edna casaram em 1943.
Edmundo Cardoso e Edna Mey Budin Cardoso, falecida em 1979. [acervo CMEC]

Escola de Teatro Lepoldo Fróes
Naquele mesmo ano de 1943, com Edna e outros atores amadores, Edmundo Cardoso funda a Escola de Teatro Leopoldo Fróes, homenageando, na denominação, o ator brasileiro reconhecido como de maior expressão, nas primeiras décadas do século XX. A Escola, que estreou em 24.4.1944, com a comédia Deus lhe pague, de Joracy Camargo, atuou durante 40 anos em Santa Maria e em outras cidades do interior, como Pelotas, Cachoeira do Sul, Santa Cruz do Sul, Alegrete e São Pedro do Sul. Em Porto Alegre, participou de três temporadas teatrais, no Theatro São Pedro, nos anos 50 e 60, um acontecimento inédito para um grupo de teatro amador do interior.
Em 2003, a Câmara Municipal de Vereadores de Santa Maria, pelo Decreto Legislativo nº04/2003, criou a Medalha de Mérito Teatral Edmundo Cardoso. A distinção, concedida a pessoas ou entidades que se destacam em favor do teatro no município, foi assim denominada em reconhecimento à produtiva trajetória, por mais de quatro décadas, do teatrólogo santa-mariense.
Edmundo com Therezinha de Jesus Pires Santos, com quem casou em 1985, em segundas núpcias. A foto registra a presença do casal em AB-Galeria de Arte, na vernissage de uma exposição, em 11.9.1986, organizada por Antonieta Brenner. A Prof.ª Therezinha é coordenadora da Casa de Memória Edmundo Cardoso. [foto: J.A.Brenner]

Atividades literárias
Edmundo foi cronista e colaborador dos jornais A Razão, O Expresso, Diário do Estado e Correio do Povo. Foi o organizador do livro USM-A nova Universidade e Coletânea das Leis Municipais de Santa Maria 1892-1940 (9 vol.). Publicou Um momento da vida do Município de Santa Maria, ref. ao 3º aniversário do Estado Novo, e História da Comarca de Santa Maria 1878-1978.
Foi eleito membro da Academia Rio-Grandense de Letras, em 1976.
Patrono da Cadeira nº 24 da Academia Santa-Mariense de Letras-ASL, Edmundo Cardoso foi tema do Sarau Literário dessa Academia, em 7.11.2016.

Casa de Memória Edmundo Cardoso
Gilda May Cardoso Santos
coord. substituta da Casa de Memória.
Além das atividades cênicas, outra faceta de Edmundo que deixou um importante legado cultural, foi o colecionamento de bens materiais que interessam à memória da cidade. Desde jovem e durante toda sua vida, ele guardou livros, revistas, jornais, documentos, fotografias e objetos que compõem o riquíssimo acervo da Casa de Memória Edmundo Cardoso-CMEC. Essa instituição foi criada em 2002, por sua viúva, Therezinha de Jesus Pires Santos, e por sua filha, Gilda May Cardoso Santos, logo após a morte do patrono, para cumprir sua vontade, homenageá-lo, consolidar e ampliar sua obra.
Associação dos Amigos
Em 24.4.2015, foi fundada a Associação dos Amigos da Casa de Memória Edmundo Cardoso-AACMEC, para suplementação de carências administrativas, técnicas e culturais da CMEC. Entre outras ações, a Associação registra, através de lei de incentivo à cultura, a aquisição de equipamentos para o laboratório de digitalização já instalado, onde estão sendo digitalizados antigos jornais do acervo.
Casa de Memória Edmundo Cardoso
foto J.A.Brenner
A sede é a própria Casa de Memória, na Rua Pinheiro Machado nº 2712, um prédio centenário construído em 1911 para residência de Constantino Gomes. Em 1944, Edmundo comprou a casa para moradia de sua família, onde, ao longo de quase 58 anos, ampliou seu acervo e onde viveu até seus últimos dias.
Homenagens
Feira do Livro
Em 2001, Edmundo Cardoso foi escolhido Patrono da Feira do Livro de Santa Maria, a mais valiosa homenagem literária da cidade. Encontrava-se então muito doente e faleceu no final do ano seguinte, em 5.12.2002, um mês antes de completar 86 anos.
Logradouro
Herma de Leopoldo Fróes,
há anos desaprumada.
foto J.A.Brenner 24.7.2013
A lei municipal 4669, de 2003, denominou "Largo Edmundo Cardoso" o logradouro em frente ao Theatro Treze de Maio, no lado leste da Praça Saldanha Marinho. Nesse espaço, por ocasião do jubileu de prata da Escola de Teatro Leopoldo Fróes, em 1968, Edmundo e demais dirigentes promveram a instalação da herma do patrono. O monumento em bronze e granito, doado pelo empresário Salvador Isaia, encontra-se há anos em progressiva inclinação, por ação das raízes de uma árvore indevidamente plantada a curta distância. Poderá tombar devido a uma "raiz iconoclasta", como adjetivou Antonio Isaia, referindo-se a uma caso idêntico, ocorrido com o monumento ao Cel. Niederauer.
Visita
Na manhã deste domingo, data do centenário de Edmundo Cardoso, familiares e associados da AACMEC visitaram  seu jazigo, quando foram proferidas palavras de saudade, afeto e reconhecimento. As pessoa presentes colocaram rosas nas floreiras do jazigo.

Um documento epigráfico, afixado no túmulo, reproduz  um trecho do discurso de posse de Edmundo Cardoso, em 1976, na Academia Rio-Grandense de Letras, na cadeira nº 28, que tem João Belém como patrono. Revela o intenso amor de Edmundo por sua terra natal, que o tornou o valoroso "guardião de memórias" de Santa Maria.

  [foto Gaspar Miotto]

"Pertenço à minha cidade e ela me pertence. De tal modo somos unidos e nos compreendemos, e de tal jeito nos amamos, que tudo o que faço, tudo o que penso, tudo o que sonho está ligado,  docemente ligado à minha Santa Maria da Boca do Monte."


sábado, 7 de janeiro de 2017

Carmen Paz - campeã brasileira de tênis



Carmen Brenner Paz
   Carmen Brenner Paz, minha prima-irmã, completa hoje 94 anos de idade.
   A maior glória do passado do tênis santa-mariense, Carmen Brenner Paz, nasceu em Santa Maria, em 7 de janeiro de 1923. Desde a primeira infância, seu ambiente familiar era ligado ao tênis. Seu pai, o cirurgião-dentista Altino de Figueiredo Paz, figurava entre os primeiros sócios homens do Avenida Tênis Clube, no ano de fundação, em 1917, então na Avenida Rio Branco. 
Quando o clube estava na Praça da República, onde hoje está o Corpo de Bombeiros, sua mãe, Edith Brenner Paz, praticava o esporte, e a menina Carmen juntava bolas para ela, no início dos anos 30. Seus três irmãos eram hábeis tenistas. O mais velho, Flávio Paz, aos 15 anos, em 1933, era chamado de “Menino de Ouro” do tênis. Naquele mesmo ano, seu tio Ennio Brenner – meu pai – tornara-se o campeão do Avenida Tênis Clube. 
Da esquerda: Arthur, Carlos Horácio,
Carmen e Flávio Paz.

   Quando crianças, Carmen e seus irmãos improvisavam, no quintal de sua casa, uma rede feita com sacos e jogavam tênis com raquetes de madeira. Com 15 anos, em 1938, ela associou-se ao Avenida Tênis Clube. Após pouco mais de um ano jogando tênis com uma raquete de verdade, Carmen foi inscrita no Torneio Aberto de Tênis, realizado pela Sociedade Juvenil, em Porto Alegre, em junho de 1939. Tinha 16 anos e sagrou-se a campeã do torneio. Foi o primeiro título da gloriosa carreira tenística de Carmen Paz. Jamais recebeu treinamento de técnicos profissionais. Suas qualidades eram inatas, como eram em vários tenistas de sua família. Atleta de grande fibra, dotada de pertinácia e força de vontade,  dedicava-se intensamente nos jogos, mesmo em recreação. De temperamento firme e enérgico, infundia essa energia no seu belo estilo de jogo incisivo e harmonioso. Agia com modéstia fora das quadras, mas transformava-se ao empunhar a raquete, demonstrando vigor e entusiasmo, na época excepcionais numa atleta mulher. Sua atitude era impecável, mesmo nos lances mais infelizes, quando comportava-se de forma exemplar.
A Gazeta Esportiva de Curitiba, edição de 25.8.1953, notocia a conquista de Carmen.


 Entre seus incontáveis títulos e conquistas, alguns merecem destaque especial.
Venceu por mais de 10 anos consecutivos o Campeonato Aberto do Moinhos de Vento, em Porto Alegre, de 1945 a 1954.  Foi campeã individual do Estado, por vários anos, sagrando-se Penta-campeã Estadual de Tênis, em 1953.  Em 1949, tornou-se Campeã Brasileira por equipe.  No ano seguinte, 1950, conquistou o maior título do tênis no país: Campeã Brasileira.  Não competiu em 1952, mas repetiu a façanha em 1953: Bicampeã Brasileira de Tênis.
As notícias então destacavam que Carmen Paz era indiscutivelmente a atleta que maiores e mais notáveis glórias esportivas havia trazido para Santa Maria.
A grande tenista do Avenida Tênis Clube conquistara a totalidade dos títulos disputados em Santa Maria, no Estado e no País, tendo ainda, naquele ano, conquistado, pela segunda vez, o título máximo no certame brasileiro de tênis.
Carmen Brenner Paz, em 1955, transferiu-se, com sua família para Porto Alegre.
Em 1986, o Avenida Tênis Clube prestou homenagem à sua grande atleta, inscrita em placa de bronze afixada em uma de suas quadras.

Nos 150 anos de emancipação política de Santa Maria, em 2008, Carmen foi agraciada com a medalha do "Mérito Esportivo".

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

150 anos da SOCEPE desde o Deutscher Hilfsverein

A migração de alemães e descendentes para Santa Maria, desde as antigas colônias da região de São Leopoldo, começou no início da década de 1830 e continuou durante a Guerra dos Farrapos. Na florescente povoação santa-mariense, os alemães que, durante o conflito, garantiram as atividades de comércio e produção, mantiveram sua hegemonia em tempos de paz. Na época de sua emancipação política, em 1858, Santa Maria era visivelmente alemã em quase todas as atividades: comerciantes, alfaiates, curtidores, lombilheiros, ferreiros, pedreiros, ourives, sapateiros, marceneiros etc.
Isso atraiu, cada vez mais, a migração para Santa Maria, desde aquelas colônias, onde as famílias aumentavam e as terras escasseavam. Grupos familiares, às vezes numerosos, deslocavam-se para a vila santa-mariense e para a recém-fundada Colônia do Pinhal, hoje Itaara.
Deutscher Hilfsverein
A forte presença germânica em Santa Maria, em meados do século 19, e o tradicional associativismo da etnia geraram a organização de sociedades. Em 1866, foram fundadas a Deutsche Evangelische Gemeinde (Comunidade Evangélica Alemã) e o Deutscher Hilfsverein. Essa sociedade, mais tarde também denominada Sociedade Beneficente Alemã, foi criada para amparar os imigrantes recém-chegados a Santa Maria ou em trânsito, numa época de intensa imigração.
A fundação e os 18 fundadores
A ata de fundação e as seguintes, nos primeiros 47 anos da sociedade, não foram conservadas, mas o extenso noticiário no Diario do Interior e em A Razão, em 1936, referente aos 70 anos de fundação, contém valiosas informações.
Otto Brinckmann
Presidente fundador
 A comemoração iniciou com a celebração, pelo Pastor Daniel Kolfhaus, de um culto memorial na Igreja Evangélica Alemã. Depois, na sede social à Rua Venâncio Aires, houve uma sessão solene, presidida pelo sócio mais antigo, Ildefonso Brenner, 74 anos, que passou a palavra ao jornalista José Garibaldi Filizolla, orador do evento, em português. No discurso, ele disse que havia 70 anos, em 28.10.1866, 18 alemães e descendentes, numa nobre manifestação de solidariedade humana, fundaram uma agremiação “com o elevado propósito de amparar os sócios, moral e materialmente, quando a situação o exigisse, bem como aos demais patrícios e seus descendentes que necessitassem de amparo”. Prestou homenagem aos fundadores, enunciando seus nomes “com o maior respeito e saudade, todos falecidos”, a seguir citados com seus cargos na primeira diretoria:

    Otto Brinckmann (presidente), Franz Weinmann (vice-presidente), Wilhelm Fischer (secretário), Peter Cassel (tesoureiro), Nicolaus Ehlers, Philipp Jacob Schirmer, Jacob Maurer e Jacob Krebs (diretores); e mais 10 fundadores: Abraham Cassel, Augusto Morsbach, Carlos Lampert, Heinrich Friedrich Eggers, Johann Heinrich Druck, Miguel Adamy, Nicolau Becker, Pedro Weinmann, Peter Brenner e Theodoro Weber.
Outros dirigentes fundadores. Desde a esquerda: Franz Weinmann, vice-presidente;
Wilhelm Fischer, secretário; Peter Cassel, tesoureiro; Philipp Jacob Schirmer, diretor
      Logo depois, discursando em alemão, o Pastor Kolfhaus destacou a atividade e dedicação dos fundadores pelo progresso da sociedade e apresentou um histórico, referindo-se aos benefícios prestados aos sócios e à coletividade. Concluiu incitando os germânicos locais a, unidos, “propugnarem pelo progresso do Deutscher Hilfsverein, a exemplo do que por ele fizeram os seus antepassados”.

O discurso de Filizolla incluiu a valiosa informação de que “a sessão de fundação teve lugar na casa do Sr. Otto Brinckmann, onde é hoje a residência do seu genro, o Sr. Candido Souza.” Era um casarão na Rua do Comércio, hoje Segunda Quadra da Rua Doutor Bozano. Em 1950, a propriedade foi vendida a Reinoldo Emilio Block, que ali mandou construir o Edifício Block, nº 1058.
A seta indica a casa de Otto Brinckmann, local da fundação do Deutscher Hilfsverein..
Detalhe de foto de Bortolo Achutti, na 2ª metade dos anos 1940.
Em 1936, estava disponível a documentação referente a esses dados, inclusive a ata de fundação, pois quatro anos antes, na inauguração da sede, o orador João Geiger Bonuma citara o “velho livro da sociedade [...] no cursivo caprichoso de Guilherme Fischer [...]”
Por essas razões, causa estranheza a relação de 71 fundadores em História do Município de Santa Maria (1933), cujo autor, João Belém, certamente teve acesso à mesma documentação. A hipótese mais provável é que, feita a ata, após a assinatura do presidente, novos associados passaram a assiná-la, sem apresentá-la antes aos fundadores.
Mais uma vez se revela a importância das hemerotecas do Arquivo Histórico Municipal e da Casa de Memória Edmundo Cardoso ante o lamentável extravio dos arquivos institucionais.
Carl Ferdinand Otto Brinckmann
Esse era o nome completo do primeiro presidente, sem dúvida o líder da fundação do Deutscher Hilfsverein – hoje SOCEPE. Além de encabeçar a diretoria, a reunião fundamental foi realizada em sua casa.
Ele veio ao Brasil, em 1851, com 25 anos de idade, como capitão de artilharia entre os cerca de 2000 militares do exército prussiano, contratados pelo Império Brasileiro para a Guerra contra Oribe e Rosas. Era, portanto, um Brummer, apelido pelo qual esses militares ficaram conhecidos. Depois de licenciado, estabeleceu-se em Santa Maria, supostamente em 1855, como agrimensor, ofício que conhecia, por ser oficial artilheiro. É de autoria de Brinckmann um dos mais antigos mapas do traçado urbano da cidade, datado de 1861.
Faleceu em 4.1.1903 e foi sepultado no Cemitério Evangélico Alemão, hoje incluído no Cemitério Municipal. A SOCEPE efetuou, recentemente, a restauração de seu túmulo onde afixou uma lápide em homenagem aos fundadores, citando os membros da primeira diretoria.
Transformações – SOCEPE
Anos depois, a Sociedade Beneficente Alemã tornou-se de amparo mútuo. Até 1939, mantinha e abrigava, no salão do segundo pavimento, o Colégio Brasileiro-Alemão e no pavimento inferior, o restaurante da sociedade.
Sede do Deutscher Hilfsverein, Sociedade Beneficente Alemã,depois Sociedade
Concórdia, demolida em 1982. No local,hoje está a sede central da Socepe. 
Em decorrência da declaração de guerra à Alemanha, em 1942, a sociedade foi desativada e o salão requisitado para uso do Círculo Militar. Anos após o término da guerra, alguns sócios mais antigos, num trabalho demorado e pertinaz, conseguiram a devolução do patrimônio. Entretanto, a Sociedade teve dificuldades para se reerguer, embora o restaurante, que funcionava terceirizado, fosse, durante largo período, o melhor da cidade. O nome fora mudado para Sociedade Concórdia, denominação adotada, durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, por várias outras sociedades de matriz cultural alemã, no país. Concórdia é acordo, paz, harmonia de vontades e opiniões.
Em 7 de julho de 1966, um século após a fundação, reuniram-se em assembleia geral os associados da Sociedade Concórdia e do Clube de Caça e Pesca de Santa Maria que, por maioria absoluta, aprovaram sua fusão. Ambas eram presididas por Horst Oscar Lippold, o que favoreceu a aceitação da proposta.
Surgia, assim, a Sociedade Concórdia Caça e Pesca, o grande clube que conhecemos pela sigla SOCEPE, com sede central no mesmo antigo endereço da Rua Venâncio Aires nº1596 e sede campestre em Itaara, com área de 50 hectares.
150 anos
Na assembleia geral de 29.7.2013, convidado pelo então presidente João Carlos Provensi e pelo patrono Horst Lippold, apresentei a justificativa para que a data de fundação do Deutscher Hilfsverein fosse adotada como aniversário da SOCEPE.
A assembleia aprovou a proposta por unanimidade e, assim, a SOCEPE, a mais antiga sociedade de
Santa Maria e uma das mais antigas do Estado, ostenta, com justo orgulho, em sua identidade visual, o ano de sua fundação, e neste 28 de outubro de 2016, comemora seus 150 anos de existência.
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Nota - A matéria desta postagem foi publicada no jornal A Razão, de S. Maria, na edição de 29.10.2016
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Fontes:
Arquivo Histórico Municipal de S. Maria: Diario do Interior, ed. 27.11.1936 e 1.12.1936.  A Razão, ed. 1.12.1936.
Arquivo pessoal
Casa de Memória Edmundo Cardoso.
Revista Commemorativa do Centenario de Santa Maria, 1914.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Catharina Franziska Weckert – Laydner por casamento

No dia 29 de julho de 1792 – há exatos 224 anos –, foi batizada Catharina Franziska Weckert, minha trisavó materna. No registro, não consta a data do nascimento, mas ela deve ter nascido naquele mesmo ano, na pequena comunidade de Büdesheim, junto e ao sul de Bingen am Rhein, histórico e importante porto no Rio Reno. O batismo foi celebrado na igreja paroquial católica dos Santos Áureus e Justina.
Büdesheim é hoje um bairro de Bingen, com pouco mais de 7.000 habitantes.

Catharina Franziska nasceu numa época muito conturbada. Em fins de 1792. Büdesheim foi invadida pelos franceses, após 800 anos sob a administração do Arecbispado de Mainz, cujo arcebispo era um dos eleitores do imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Mainz, 25 km a leste de Büdesheim, é hoje a capital do Estado Federal da Renânia-Palatinado.

Tempos de guerra
Em 27 de agosto de 1791, o imperador do Sacro Império, Leopoldo II, que era irmão de Maria Antonieta, e o rei da Prússia emitiram uma declaração aos revolucionários franceses em favor do bem-estar de Luís XVI e de sua família. Ameaçavam com vagas, mas severas consequências caso algo de mau lhes acontecesse.
Em 20 de abril de 1792, a França declarou guerra à Áustria, e em julho, o Duque de Braunschweig, no comando de tropas prussianas, invadiu a França e declarou sua intenção de restaurar os plenos poderes do rei francês. Entretanto, em setembro, diante da indefinição da Batalha de Valmy, os prussianos perceberam que a campanha se tornava mais longa e mais onerosa do que supunham. Decidiram então retirar-se do território francês.
A França tomou a ofensiva e, no final de 1792, tinha conquistado a Renânia, região alemã principalmente a oeste do Reno. Iniciava assim um domínio francês que durou 22 anos, até a derrota de Napoleão e o consequente Congresso de Viena (1814-15).
A residência dos Weckert não mais existe.
Nesse cenário cresceu a jovem Catharina Franziska, a 7ª entre 14 filhos e filhas de Peter Weckert e Maria Catharina Aßner (Assner). Já haviam nascido então 6 irmãs suas, entre elas Maria Theresia, em 30.9.1789.  
O pai, Peter Weckert, vitivinicultor, tinha 33 anos quando houve a invasão francesa. Ele era, desde 1788, Gemeindeschreiber, o chefe da administração da Comunidade.
Durante o domínio francês, Weckert foi o Maire (prefeito) da localidade (1801-05) e Kirchenmeister (1803-10) o Mestre da Igreja, eleito pela comunidade eclesiástica para supervisionar os bens, realizar os registros cadastrais, arrecadar a receita, rejeitar despesas e realizar a contabilidade.
A retirada dos franceses, em 1813, e as guerras subsequentes de libertação por sua vez, trouxeram novos encargos, especialmente devido aos muitos russos aquartelados em Büdesheim.

Não é conhecido um brasão ou sinete do prefeito Peter Weckert; é mesmo  pouco provável que ele o tenha adotado em seu mandato, que foi influenciado com as ideias revolucionárias francesas. O autor da  genealogia Weckert, citada em fontes, desenhou um brasão que lembra a terra natal e as ocupações de Weckert.
Sobre  escudo vermelho, uma barra prata ondulada e inclinada separa uma cabeça de cavalo e um cacho de uva remetem às profissões de carreteiro (antiga) e de vitivinicutor; sobre o elmo de prata, um homem vestido de vermelho segura na mão direita um bastão prata de prefeito e na esquerda um Código Napoléon azul.

Atrações culturais
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Igreja
Igreja católica dos Santos Áureus e Justina
A primeira citação documental da Igreja católica de Büdesheim é de 1184, quando pertencia ao Mosteiro Santo Alban, em Mainz, e já era consagrada a Santo Aureus e Santa Justina. O templo fora construído no século XII, em estilo românico, do qual resta somente a torre coberta de ardósias. A nave única, barroca, é de 1756 e foi danificada durante a Segunda Guerra Mundial, sendo restaurada em 1950.
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Alte Rathaus
A antiga Câmara Municipal de Büdesheim, die alte Rathaus, foi a sede do governo de Peter Weckert como prefeito (1801-1805). É um edifício retangular gótico tardio, construído em 1539, com cobertura barroca, em quatro águas, As pequenas torres com ameias, nos cantos, são características de edificações em alvenaria de pedra dos séculos XIV e XV, no Médio-Reno.

A antiga Rathaus, na Burgstrasse nº 2, é um marco histórico em Büdesheim, cujo salão é utilizado para eventos.

Os irmãos Leidner ou Laydner
Johann Peter Leidner e Peter Joseph Leidner eram filhos de Joseph Leidner, pedreiro em Kirn. Ambos haviam nascido, respectivamente em 1787 e 1789, em Birkenmühle, um vilarejo junto a Herrstein/Hunsrück.
Os irmãos Leidner, depois Laydner, casaram com filhas de Peter Weckert.
Johann Peter era mestre-pedreiro em Kirn, 50 km ao sudoeste de Büdesheim, quando casou com Catharina Franziska Weckert em 20.10.1817, em Büdesheim.
Peter Joseph era pedreiro em Büdesheim quando casou com Maria Theresia Weckert, em 15.4.1819.
Johann Peter e Catharina Franziska viveram em Kirn/Hunsrück, onde nasceram seus cinco primeiros filhos. Em 1827, mudaram-se para Simmern, cidade 30 km ao norte, onde nasceram outros quatro filhos, entre os quais Johann Carl em 05.01.1828 e Jacob Ludwig, meu bisavô materno, em 11.11.1829.
Catharina Franziska faleceu em Simmern, com 50 anos de idade, em 31.12.1842, seis anos após o nascimento da última filha, Cornelia Catharina.
Alguns anos depois, Johann Peter Laydner e os filhos Johann Carl, Jacob Ludwig e Josephina (Maria Josepha) deixaram Simmern com destino ao Brasil, e chegaram à Colônia Alemã de São Leopoldo, em 26.10.1848.
Posteriormente, estabeleceram-se em Santa Maria, onde geraram grande descendência: Jacob Ludwig Laydner como ourives e Johann Carl Laydner, incialmente como construtor e depois como vitivinicultor, mas essa é outra longa e importante história.
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Fontes:
Arquivo pessoal
BRENNER, José Antonio. O pioneirismo de Johann Friedrich Mergener e os Vinhos Laydner. Palaión, Museu Educativo da UFSM, Santa Maria, v. 2, nº 1, 1992.
FRIEDRICH, Heinz. Die Weckert aus BüdesheimDeutsches Familienarchiv. Neustadt  an der Aisch, Verlag Degener & Co., 1955, v. 4
https://pt.wikipedia.org/wiki/Primeira_Coliga%C3%A7%C3%A3o
http://www.regionalgeschichte.net/rheinhessen/buedesheim/kulturdenkmaeler/rathaus.html

sábado, 16 de julho de 2016

Amelinha – a segunda rainha do tênis

A diretoria do Avenida Tênis Clube, eleita em 3.3.1934, sob a presidência de João Geiger Bonuma, em sessão realizada em 18.5 de 1934, encarregou seu órgão oficial, o A.T.C., de organizar a eleição da nova rainha do clube.
O Diario do Interior, jornal santa-mariense que publicou várias notícias sobre o andamento da eleição da primeira rainha, no ano anterior, nada noticiou até 24.7.1934, quando anunciou o baile da coroação.
Apenas o jornal A.T.C., em sua edição de 12.6.1934, comentou o invulgar entusiasmo gerado pela votação cuja primeira apuração, no sábado anterior, 9 de junho, resultou na seguinte contagem: Elisa Pereira, 45 votos; Amelia Pereira, 25 votos; Ivanisa Rocha, 15; Agueda Brazzale, 10; Lucia Izaguirre, 5 e Clelia Nieves, 5 votos. A notícia concluiu advertindo os eleitores ateceanos que a eleição seria
Elisa Pereira, a mais votada
no primeiro escrutínio.
encerrada no seguinte dia 25, segunda-feira, e que havia cédulas para votação à disposição na Livraria do Globo. Essa livraria, na Primeira Quadra da Rua Dr. Bozano, onde hoje está o Santa Maria Shopping, era dirigida por Cesar Millan, que exercia a direção comercial do jornal A.T.C. Esse órgão do clube não noticiou o resultado final que também não foi citado nas atas das duas seguintes sessões de diretoria; a ata de 2 de julho apenas registrou que a diretoria deliberou realizar a festa da coroação da nova rainha, no final do mês.
Mas, apesar da larga vantagem de Elisa, 16 dias antes do encerramento da votação, Amélia Pereira foi eleita a segunda rainha do Avenida Tênis Clube.
Amelinha, como era carinhosamente chamada por todos, foi destacada no jornal A.T.C., na edição citada, na coluna Galeria do A.T.C.

Jornal A.T.C. ano 1, nº 12 - ed. de 12.6.1934 - 1ª pág.

As iniciais  L. I.. na assinatura do texto, eram, possivelmente, de Lucia Izaguir4re, companheira de tênis e de diretoria de Amelinha, que também foi votada para rainha. O poeta citado era Layette Edgar Poggi de Lemos Duarte, da Academia Pernanmbucana de Letras.

Amelinha
Amelia Filizzola Pereira nasceu em 24.8.1915 em Jari, então distrito de Santo Ângelo. Em 1928, Jari passaria a ser distrito do município de Tupanciretã, do qual se emancipou, em 28.12.1995. Era filha do fazendeiro Affonso Pereira e de Romilda Filizzola Pereira.
Tinha 12 anos quando, junto com seus pais e de suas seis irmãs, mudou-se para Santa Maria, em fins de 1927.
Após completar 17 anos, Amelia associou-se ao Avenida Tênis Clube. Foi proposta pelo presidente Alcides Roth e admitida na sessão de diretoria, em 3.9.1932.
Ela estava então concluindo o curso de professora na Escola Complementar, que formava as chamadas “alunas-mestras”. Entretanto, a formatura somente foi realizada em 17 de junho de 1933, sábado, no salão do Clube Comercial instalado no último andar da União dos Caixeiros Viajantes. Esse adiamento foi, certamente, devido à Revolução Constitucionalista para derrubar o Governo Provisório de Vargas, eclodida em São Paulo, em 32 de julho de 1932, que se estendeu com guerrilhas no Rio Grande do Sul, onde terminou em 20 de setembro do mesmo ano.
Era uma jovem com talentos musicais: cantava, tocava piano, acordeão e bandolim.
Na tarde de domingo de 2.4.33, quando foi jogado um torneio de duplas masculinas,  compareceram ao clube várias jovens ateceanas, entre elas Amélia Filizzola Pereira que “a todos deliciou, tocando piano”, segundo o cronista “Fundo”.

Em 3.3.1934, realizou-se a assembleia geral para eleição da nova diretoria, no salão do A.T.C., na Praça da República. Por aclamação, foi eleita a diretoria composta por:
Presidente: João Geiger Bonuma; vice-presidente: Lamartine Souza; 1º secretário: Alcyr Valfredo Pimentel; 2ª secr. Lucia Izaguirre; 1º tesoureiro: Athos Lenz; 2ª tes.: Amelia Pereira; diretor esportivo: Carlos Lang. Conselho Fiscal: Ennio Brenner, Ernesto Lang e João da Costa Ribeiro.
Assim, a professora Amelia Pereira, aos 18 anos de idade, um ano e meio após ter se associado ao A.T.C., já integrava a diretoria do clube.
Na sessão de 4 de junho, foram admitidos como sócios os aspirantes Odacyr Timm, Tito do Canto e Nestor de Matos Brito, propostos por Amélia Pereira. Possivelmente nessa época havia iniciado o namoro entre Amélia e Odacyr que, um ano depois, em 21.7.1935, oficializaram o noivado.

Odacyr Luiz Timm
Odacyr e Amelinha, na data do noivado: 21.7.1935
O noivo de Amelinha nasceu em Santa Maria, em 31 de julho de 1912, filho de Álvaro Timm e Ernestina Lemes Timm. Era trineto de Hans Heinrich Timm, que imigrou com esposa e cinco filhos na primeira leva de alemães, chegados à Colônia Alemã de São Leopoldo, em 25 de julho de 1824.
Odacyr cursou a Escola Militar do Realengo, Rio de Janeiro, e formou-se aspirante artilheiro, em 1932. Em sua cidade natal, serviu no 5º Regimento de Artilharia Montada que, em 1950, recebeu a denominação histórica de Regimento Mallet.
Em 1934, o aspirante Odacyr Timm, novo associado do Avenida Tênis Clube, passou a praticar o esporte.

Tenistas
Era costume marcar o início das atividades tenísticas com um programa de jogos, em um domingo de março. Era a “Abertura da Temporada”.
Recorte da foto de um grupo de tenistas, na quadra do ATC, em 1934.
Como preparação para a abertura de 1935, o diretor esportivo, Ennio Brenner, organizou vários jogos de duplas no dia 17 de março. A partida inicial foi disputada por Lamartine Sousa-Elisa Pereira contra Ennio Brenner-Amélia Pereira. Ennio era o campeão do A.T.C. e Lamartine o anterior campeão.  O cronista que assinava “Rod.”, ficou bem impressionado com o jogo das moças e escreveu, no Diario do Interior, que “ficou comprovado que, se as tenniswomen do Avenida cultivassem o elegante esporte da raqueta teriam uma ótima colocação entre as poucas tenistas femininas do Estado.”

Entre 33 tenistas (29 homens e 4 mulheres), Odacyr e Amelinha participaram dos jogos da abertura da temporada, em 24.3.1935.
O mesmo cronista registrou:
O que mais entusiasmou a direção do simpático A.T.C. foi a atuação, digna de registro, das duas duplas femininas, que se houveram com tal homogeneidade de jogo, que é difícil destacar qual a de melhor performance. Elisa, Dinah, Amelinha e Clelia foram as figuras máximas da tarde, razão por que lhes apresentamos as nossas felicitações.

Elisa Pereira e Dinah Schmidt venceram por 6x3, 3x6 e 6x4.

A dupla Odacyr Timm-Tito do Canto venceu a dupla cap. Ruy Bello-ten. Alcides Bittencourt por 6x3 e 6x1. Segundo o cronista “Rod.”,
o tenente Tito fez jogadas arrebatadoras, na rede, confirmando que é um bom artilheiro. O tenente Odacyr, calmamente, “desacatou” os seus adversários e colegas, vencendo juntamente com o seu companheiro de armas.

O último jogo, disputado pelas duplas Ennio Brenner-Flavio Paz x Lamartine Souza-João C. Ribeiro foi, segundo a crônica esportiva, " a demonstração culminante, encerrando com chave de ouro o torneio inirium mais admirável que temos assistidos nas quadras do alviceleste. [...] Os quatro jogadores, até a noitinha, encantaram os apreciadores do lindo e difícil esporte"  Ennio e seu jovem sobrinho venceram por 6x8, 6x3 e 7x5. Flavio Paz, 17 anos, era chamado o "menino de ouro" do ATC.
Várias empresas doaram prêmios aos vencedores, que estiveram em exposição na vitrina da Casa Herrmann, na Primeira Quadra da Rua Dr. Bozano, onde hoje está a Joalharia e Ótica Gaiger.
Um toldo foi montado para maior conforto dos torcedores aos quais foram servidos sanduíches, chope e outras bebidas, enquanto a banda de música do 7º Regimento de Infantaria animava a tarde esportiva.
A abertura da temporada entusiasmou os ateceanos e a crônica esportiva que publicou:
À diretoria do Avenida Tênis Clube, especialmente ao seu esforçado diretor esportivo Sr. Ennio Brenner, damos parabéns pela satisfação que nos proporcionou a sua tarde desportiva de domingo.
E na sessão de diretoria, em 28.3.1935, devido ao grande êxito na abertura da temporada, foi consignado em ata um voto de louvor ao diretor esportivo Ennio Brenner.
Publicado no Diario do Interior, sábado, 28.7.1834, 1ª pág. O secr. Alcyr Valfredo
Pimentel era paranaense e viera trabalhar na cooperativa dos ferroviários. Seu filho
Roberto Valfredo Pimentel, o conhecido Tatata Pimentel, nasceu em S. Maria, em 1938.

O Baile da Rainha
Na edição de 28.7.1934, sábado, o cronista do tênis que assinava “G” descreveu no Diario do Interior noticiou, com riqueza de detalhes, a grande festa social que se realizaria à noite.
Seria uma festa imponente no “magnífico salão do Clube Comercial,” ricamente iluminado, onde haveria “a elegância dos pares, a alegria, a beleza dos toaletes das mais encantadoras jovens.”
O Clube Comercial ocupava o último pavimento do Edifício João Fontoura Borges da União dos Caixeiros Viajantes. No espaço do citado salão, estão hoje os setores administrativos do gabinete do prefeito municipal.
O cronista citou a comissão de ornamentação, composta por Chiquinha Souza, Naná Bonuma e Lila Lenz, que estava “envidando todos os esforços para maior realce da festa”.  E descreveu que a rainha Norma Seibel, introduzida por João Appel Lenz e Adolpho Bastide, se encontraria no salão com a rainha eleita Amélia Pereira, acompanhada pelo presidente João Bonuma e por Lamartine Souza. O ato seria abrilhantado pelo hino do A.T.C. cantado por Clelia Filizzola e Dora Jornada, quando Amélia Pereira seria conduzida, com seu séquito de pajens, aias, garçons e demoiselles d’honeur, ao trono, para a solene coroação.
Amelia Pereira recém-coroada. à esq.: Carlos Lang, Lamartine Souza, Eurico Nerva e
Norma Seibel (rainha anterior). À dir.: Lucia Izaguirre, João Bonuma e Alcyr Pimentel.
foto: Sioma Breitman/Casa Aurora
Logo após, com início previsto para a 22h30min, haveria o brilhante “Baile da Rainha”.
As edições seguintes do Diario do Interior nada comentaram sobre a festa, e nas atas do A.T.C. há apenas uma citação referente a um ofício de agradecimento ao Clube Comercial pela cedência do salão.

Tesoureira
Atuando como 2ª tesoureira, desde março de 1934, Amelinha tornou-se 1ª tesoureira, na diretoria aclamada na assembleia geral extraordinária de 28 de dezembro do mesmo ano. Uma diretoria de curto mandato, composta para preencher cargos vagos: além de outros demissionários, o presidente João Bonuma, que era juiz distrital, renunciara devido à sua transferência para Porto Alegre, onde iria lecionar na Faculdade de Direito.
Em março do ano seguinte, Amelinha apresentou o balancete da tesouraria à assembleia geral que aclamou nova diretoria.

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Odacyr e Amelinha casaram em 30 de janeiro de 1936, na Catedral de Santa Maria. Residiram, por cerca de três anos na cidade, onde nasceram seus dois primeiros filhos: Maria de Lourdes, em 4.2.1937, e Odacyr Luiz Junior, em 20.8.1938. Em razão da carreira militar, viveram em Pouso Alegre/MG, Realengo/RJ, Ijuí/RS e novamente em Santa Maria, onde o então major Odacyr Timm cursou a Faculdade de Farmácia de Santa Maria, na época agregada à URGS. Formou-se farmacêutico em dezembro de 1952 e, ao passar para a reserva, como general de brigada, em 1962, dedicou-se plenamente á Farmácia. Entre outras funções, foi conselheiro e secretário-geral do Conselho Regional de Farmácia/RS e assessor itinerante de todos os conselhos regionais, pelo Conselho Federal de Farmácia.
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Fontes:
Acervo fotográfico de Maria de Lourdes Pereira Timm.
Arquivo pessoal.
Arquivo Histórico Munic. de S. Maria – Hemeroteca: Diario do Interior, edições de 19.3.35 e 26.3.1935.
Conselho Regional de Farmácia/RS.
Gazeta da Farmácia, RJ - ed. Abril de 1975.
Livro de atas nº 1 do Avenida Tênis Clube.
Timm, Maria de Lourdes Pereira. Hans Heinrich Timm (trab. genealógico n.p.)