segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A.T.C. - Presidentes esquecidos (3)


Mais um ex-presidente do Avenida Tênis Clube, não incluído na galeria de fotos:

   Antonio Rodrigues de Azevedo
Eng. Antonio Rodrigues de Azevedo
   Entre as decisões da reorganização do Exército, iniciada em 1908, estava a construção de novos quartéis. Na década de 1920, a Companhia Construtora de Santos, na época a maior empresa brasileira no ramo, talvez na América do Sul, realizava obras militares em 19 cidades do Estado, inclusive o quartel do 5º Regimento de Artilharia, em Santa Maria. A posição geográfica e a facilidade de transporte ferroviário levaram a empresa a instalar na cidade, no último trimestre de 1921, seu escritório central e residência do engenheiro chefe, no Estado, Antonio Rodrigues de Azevedo.


   No Avenida Tênis Clube  
   Proposto e admitido sócio do Avenida Tênis Clube, na sessão de 3.6.1922, logo conquistou o apreço e a estima do quadro social, por sua capacidade de liderança e experiência administrativa. Nove meses depois, foi eleito presidente do clube, na assembleia geral de 15.3.1923, realizada no Clube Caixeiral.
   Em sua primeira sessão de diretoria, em 22 de abril, foi decidida a mudança para a Praça do Mercado, com a construção de três quadras de tênis e pavilhão social.
   Também ficou decidido instalar uma sede provisória para convívio, reuniões e esportes de salão, em um prédio da Primeira Quadra da Rua do Comércio que, no fim do ano seguinte, seria rebatizada Rua Doutor Bozano. A inauguração ocorreu na tarde de 3 de maio que, à época, era o feriado comemorativo do Descobrimento do Brasil. Muitos sócios compareceram ao ato que se estendeu com jogos de pingue-pongue, xadrez e outros. Essa sede continuou muito movimentada, sendo ali disputado um campeonato de pingue-pongue.
   Em 18 de maio, o presidente Azevedo oficiou ao Intendente Municipal, pedindo que fosse concedida ao A.T.C. “por tempo indeterminado, a área atualmente desocupada e existente na Praça do Mercado, para nela construir os melhoramentos que deseja.” Anexou o projeto com as quadras esportivas e o pavilhão social, elaborado pelo escritório local da Cia. Construtora de Santos.

Desenho com base em descrições e fotos.
   Praça do Mercado era o nome popular de uma área sem qualquer tratamento paisagístico que fora doada ao Município, em 1900, para a construção de um mercado, o que nunca ocorreu. Em 1913, foi oficialmente denominada Praça 15 de Novembro, nome não adotado pela população. Era limitada pelas ruas do Comércio (Dr. Bozano), Duque de Caxias e Cel. Niederauer. A leste limitava com particulares, e somente anos depois foi aberta ali a rua que tomou o nome de Ernesto Marques da Rocha, por coincidência o intendente que concedeu o uso da área ao A.T.C.
   Em agosto, o projeto foi exposto na vitrina da Chapelaria Americana, na Primeira Quadra, atual Calçadão. Para a obtenção dos recursos necessários, foi lançado um plano de empréstimos pelos sócios, por meio de apólices, restituíveis por sorteio, que teve pleno sucesso.

   Inauguração
   Perante grande número de pessoas, a nova sede foi inaugurada, na noite de 15 de dezembro de 1923, sábado, um fato marcante na cidade, então com pouco mais de 15 mil habitantes. O ato inaugural foi seguido de um baile animado pela banda "Choro da Aviação". O Diario do Interior, no dia seguinte, noticiou que “constituiu notável acontecimento no mundo desportivo e social santa-mariense a inauguração solene, ontem realizada, da confortável praça de esportes do Avenida Tênis Clube e do elegante pavilhão destinado à sua sede social, levantado na Praça do Mercado”. Destacou os materiais da construção das quadras, com pedra britada, carvão, areia e terra argilosa.
Trecho de notícia no Diario do Interior. (Arq. Hist. Munic.)

Espirobol
   Na descrição das instalações esportivas, o jornal citou uma quadra de basquete que talvez tenha ficado em projeto, pois, nos anos seguintes, nenhuma atividade desse esporte foi referida em atas ou em notícias.     Croquet, de origem francesa, era um jogo com bolas de madeira, impelidas por um taco, devendo passar sob pequenos arcos, em trajeto predeterminado. Ligado à história do tênis, o croquet era praticado no A.T.C. desde seu início. Espirobol era jogado com uma bola pendurada por uma corda ao topo de um mastro.
   No domingo, foi jogado um torneio com o Bagé Tênis Clube, como parte do programa inaugural, disputando a “Taça Santa Maria” oferecida por Joaquim Junqueira Rocha. Venceu o A.T.C., por 3 a 1.
  Em reconhecimento ao importante trabalho de Antonio Azevedo na presidência do A.T.C., ele foi declarado sócio benemérito e seu nome foi dado à quadra nº 1 do clube.
Sede na Praça do Mercado. À direita, o portão de acesso pela Rua Doutor Bozano
e parte do pavilhão social. (Acervo Casa de Memória Edmundo Cardoso)
Ao fundo da quadra nº 1,
a placa denominativa:
PELOUSE
DR. AZEVEDO
   Por ocasião da transferência do eng. Antonio Rodrigues de Azevedo para o Rio de Janeiro, uma festa de despedida foi realizada no clube, em 19.3.1924, quando foi instituída a “Taça Dr. Azevedo”.

   Durante muitos anos, o eng. Azevedo continuou vivo na memória do clube. O jornal A.T.C., de 23.12.33 homenageou o ex-presidente, proclamando: “Um dia tudo mudou. Progresso, três pelouses, pavilhão, salão de festas, conforto, jardins, tudo muito chique. [...] Quem fez esse prodígio? Todos sabem. Seu nome está lá no alto de uma pelouse.”
   Não está mais, a denominação da quadra foi mantida no posterior período na Praça da República, mas homenagem e a placa foram indevidamente descartadas nas instalações da Av. Dois de Novembro.

domingo, 11 de novembro de 2012

A.T.C. – Presidentes esquecidos (2)


Na série de artigos sobre ex-presidentes do Avenida Tênis Clube ausentes na galeria de fotos, abordo hoje
   Oswaldo Cordeiro de Farias
   Nascido em Jaguarão, em 16.8.1901, Oswaldo Cordeiro de Farias cursou a Escola Militar do Realengo/RJ, sendo declarado oficial de artilharia, em 1919.
   Participou da conspiração que precedeu o levante armado de julho de 1922 contra o governo federal, dando início às revoltas tenentistas.
   Santa Maria
   Após três meses de prisão, foi transferido para Santa Maria. Como faziam vários oficiais do exército, transferidos para a cidade, o tenente Cordeiro de Farias associou-se ao Avenida Tênis Clube.
   Iniciou sua participação nas diretorias do clube, quando foi eleito orador, em 15.3.1923, na gestão do eng. Antonio Azevedo, gerente da seção estadual da Cia. Construtora de Santos.
   Na assembleia de 12.8.1923, Cordeiro de Farias foi aclamado vice-presidente, no lugar da jovem Dinah Oliveira, impedida de exercer esse cargo, de acordo com os novos estatutos, por ser menor de 21 anos.
   Na ausência do eng. Azevedo, ele foi presidente em exercício por meses, quando atuou intensamente na construção da nova sede, na Praça do Mercado (Saturnino de Brito).
   Na sessão extraordinária de inauguração, em 15.12.1923, coube ao jovem oficial o ato formal de entrega das nova instalações do Avenida Tênis Clube ao quadro social e à cidade.
   Presidente
   Na assembleia de 19.3.24, Cordeiro de Farias, então com 22 anos de idade, foi eleito presidente do Avenida Tênis Clube.
Assinatura em ata do A.T.C. revela que
o nome era escrito com "w".
   Foi no A.T.C. que ele conheceu Avany de Barcellos, com quem casou, anos depois.      Avany era filha do eng. militar Cel. Oscar Barcellos, chefe da comissão de construção de quartéis. A família mudara-se para Santa Maria, em 1921, e em novembro daquele ano, Avany foi citada entre as jovens tenistas que frequentavam as duas quadras do clube, na Praça da República. Oscar Barcellos logo se tornou inspetor geral da Cia. Construtora de Santos, a maior do país, com muitas obras militares no Estado e escritório central em Santa Maria. Essa empresa atuou consideravelmente na construção da nova sede do A.T.C. e, na gestão de Cordeiro de Farias, ela perdoou uma dívida de mais de quatro contos de réis, referente às obras.
   Em agosto de 1924 o presidente Cordeiro ausentara-se por tempo indeterminado e passara o comando do clube ao vice-presidente, o comerciante Joaquim Junqueira Rocha.
No dia 5.10.1924, estando na cidade por poucos dias, foi homenageado pelo clube, com a manifestação de que pudesse logo reassumir a presidência.
Ten. Cordeiro de Farias à
época da Coluna Prestes
   Revolucionário
   Não pôde voltar à presidência do clube, pois naquele mesmo mês Cordeiro de Farias participou do levante tenentista deflagrado em Uruguaiana, exilando-se na Argentina, em novembro.
Logo se juntou aos demais contingentes rebeldes do Estado, reunidos sob a liderança de Luiz Carlos Prestes. Em 1925, os rebeldes gaúchos se juntaram aos remanescentes do levante de julho, em São Paulo, formando a Coluna Prestes, na qual Cordeiro teve atuação relevante, comandando um dos seus quatro destacamentos.

Em 1928, no Rio de Janeiro.
Tempos turbulentos de pré-revolução.
   
   A Coluna Prestes era um forte movimento tenentista contrário ao sistema das oligarquias e ao presidente Arthur Bernardes, lutando para destituí-lo e reformar a ordem social e econômica do país. Após longa marcha por vários estados, terminou em fevereiro de 1927, com vários líderes se exilando na Bolívia, inclusive Cordeiro de Farias. 
   Absolvido, participou de Revolução de 1930 e assumiu importantes cargos na Era Vargas. 
   
   
   
   Interventor
Oswaldo Cordeiro de Farias,
Interventor Federal no R.G.S.
   No Estado Novo, foi nomeado Interventor Federal no R.G.S., em 1938, quando esteve em Santa Maria, na Exposição Estadual daquele ano. Em seu discurso, lembrou a hospitalidade sem limites que aqui recebera, quando jovem tenente, onde conhecera “a companheira que tem sido o ponto de apoio nos dias de derrota e nos dias de sucesso.” Aqui ele vivera “os mais belos dias, sonhando com a Redenção do Brasil.” Citando as amizades aqui estabelecidas, destacou o joalheiro João Péreyron, seu consócio no Avenida Tênis Clube, que lhe garantira a sobrevivência, enviando-lhe recursos financeiros, no desterro boliviano. 
 
Avany de Barcellos Cordeuro de Farias,
quando primeira-dama do Estado.
 Promovido a general de brigada, em 1942, deixou a interventoria gaúcha, no ano seguinte, para se integrar na Força Expedicionária Brasileira, na 2ª Guerra, quando comandou a Artilharia da FEB, na Itália.
   Em 1945, em oposição a Vargas, articulou sua deposição.
Em 1954, foi eleito Governador de Pernambuco.
   Foi Ministro no governo de Castelo Branco, demitindo-se em 1966, por discordar da candidatura de Costa e Silva. Depois, opôs-se ao Ato Institucional nº 5 (AI-5) e defendeu ativamente a distensão política, deixando em seguida a vida pública.
   Oswaldo Cordeiro de Farias teve curto mandato no Avenida Tênis Clube, mas atuou intensamente em sua gestão, como também na anterior, como vice-presidente no exercício da presidência.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A T C – Presidentes esquecidos (1)


Carlos Menna Barreto

Alguns antigos presidentes do Avenida Tênis Clube estão ausentes na galeria de fotografias de ex-presidentes.
Até pouco tempo, faltavam as fotos de duas jovens fundadoras, que presidiram o clube no período inicial em que era comandado por mulheres: Aracy Pinto de Azevedo, segunda presidente, em 1918, e Odette Appel Lenz, 3ª presidente, em 1920. Mas essas faltas já foram corrigidas.
Recentemente, verifiquei outras omissões. Supostamente, quando foi iniciada a galeria, há cerca de 30 anos, não foram obtidas as fotos desses presidentes, cujas eleições e gestões estão registradas nas atas.

Dr. Carlos Menna Barreto
Detalhe da foto de um grupo, nos
anos 1930. Acervo Casa de Mem.
Edmundo Cardoso
Entretanto, não foi esse o caso do Dr. Carlos Ribeiro Menna Barreto, que foi presidente em 1936, num período em que nenhuma ata foi registrada, durante um ano e meio .
Embora sem registro no livro de atas, houve uma assembleia para eleição do presidente e do diretor esportivo, em razão das renúncias de João da Costa Ribeiro e Rivadávia Ribeiro, conforme o jornal A Razão, na edição de domingo, dia 11.10.1936.
 A notícia anunciava a instalação de uma copa e um amplo programa, “que fará reviver as páginas inesquecíveis com que o A.T.C. tem brindado os seus associados,” incluindo a disponibilidade de três quadras de tênis. Referia-se, possivelmente, a alguma reconstrução, porque o clube já tinha três quadras, na Praça da República.

Trecho da notícia em A Razão, edição de 11.10.1936.
Acervo Arquivo Histórico Municipal de S.M.
Outro jornal da cidade, o Diario do Interior, também noticiava Menna Barreto como presidente do clube, na edição de 16.10.1936, referente a uma excursão tenística a São Gabriel: “o diretor esportivo, Sr. Ennio Brenner, está organizando a missão, – que será chefiada pelo Dr. Carlos Menna Barreto, presidente do Avenida...”
Outra notícia, no dia seguinte,  ampliava a informação: “A missão, que é composta de 25 pessoas da elite social santa-mariense vai chefiada pelo presidente do A.T.C., Dr. Carlos Menna Barreto, que com esta excursão inicia sua atividade na diretoria do clube da Praça da República. O Sr. Ennio Brenner, diretor esportivo, tomou todas as providências para o completo êxito da excursão.”
 Os excursionistas viajaram nos trechos Santa Maria-Cacequi-São Gabriel, em carro-motor da Viação Férrea, veículo adaptado para trafegar sobre trilhos. 
À frente do carro-motor: 1. Dr. Altino Paz, 2...? 3...? 4. Carlos Lang.
5. Ennio Brenner (de chapéu). À porta do carro, Dr. Severo do Amaral.

Carlos Menna Barreto nasceu em Uruguaiana, em 1897. Ingressou na Faculdade de Medicina de Porto Alegre, de onde se transferiu, em 1919, junto com outros 16 colegas, para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, na qual se formou médico. Tal transferência tornara-se possível, desde 1900, quando fora decretada a equiparação das faculdades.
Casou em Uruguaiana, com Sara Iolanda da Maia, e estabeleceu-se em Santa Maria. Anunciava-se como oculista e especialista em ouvidos, nariz e garganta, com consultório na Rua Floriano Peixoto, 899. Em outubro de 1936, instalou novo consultório junto com a residência, na Rua Venâncio Aires, 1782. Atendia também no Hospital de Caridade.

Instituto Dr. Menna Barreto, na Rua Valle Machado.
Guia Geral do Munic.de S. Maria, 1953.
Acervo Casa de Mem. Edmundo Cardoso
Mais tarde, criou o Instituto Dr. Carlos Menna Barreto, instalado em edifício de três pavimentos, na Rua Valle Machado, considerado um dos mais bem equipados do Estado, onde realizava cirurgias e internava pacientes. Continuava a praticar a medicina de caridade, anunciando: “as pessoas pobres são atendidas gratuitamente, das 8 às 9 horas.”

O Dr. Carlos Menna Barreto faleceu em 5.11.1962, no Hospital São Francisco da Santa Casa de Misericórdia, em Porto Alegre. Tinha 65 anos de idade e hospitalizara-se na capital, para tratamento de uma grave doença.