sábado, 15 de novembro de 2014

A.T.C. - Órgão do Avenida Tennis Club

No ano de 1933, fatos importantes ocorreram no Avenida Tênis Clube. Houve a eleição da primeira rainha, foi composto o hino, realizado um festival beneficente e lançado o A.T.C., o primeiro jornal do clube. Na metade do ano, meu pai, Ennio Brenner, tornou-se campeão de tênis.

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     Em 1933, o clube vivia uma época de intensa atividade esportiva e social, em sua sede na Praça da República. Vários torneios eram disputados com clubes de outras cidades, e muitas reuniões sociais foram realizadas, na recepção aos visitantes e durante a eleição da rainha. 
   Isso motivou a ideia de que fosse organizado no clube um setor de comunicação social. Na sessão de diretoria de 30.3.1933, realizada na residência do presidente João Appel Lenz, participou o associado Alcyr Pimentel, como convidado.  Alcyr Valfredo Pimentel viera do Paraná para trabalhar na cooperativa dos ferroviários e se associara ao A.T.C. quando o clube estava da Praça do Mercado (atual Saturnino de Brito), tornando-se aplicado tenista. Viveu mais de dez anos em Santa Maria, onde casou e teve o filho Roberto Valfredo, conhecido como Tatata Pimentel, falecido há dois anos, em Porto Alegre. 
   Alcyr Pimentel então propôs a criação de um Departamento de Propaganda no clube que, conforme consta na ata, seria encarregado, “de atrair os sócios para a sede, criando jogos de salão e reuniões, fazendo publicar, no jornal local Diario do Interior, uma série de crônicas e notícias, não só do que ocorresse dentro do clube como de tudo que pudesse interessar ao esporte do tênis.”
   A proposta foi aprovada, e o Departamento de Propaganda foi criado, a cargo do engenheiro Luiz Schmidt Filho, do médico Lamartine Souza e de Alcyr Pimentel, autor da ideia.
   O departamento foi logo incumbido de divulgar a eleição da rainha e um ofício foi endereçado ao jornalista Ney Luiz Osório, diretor do Diario do Interior, pedindo-lhe o necessário apoio quanto à publicação de notícias e crônicas sobre o tênis.
    Quase que diariamente, o Diario do Interior passou a apresentar matérias sobre o Avenida Tênis Clube, na forma de notícias sobre jogos e eventos sociais e de crônicas sobre temas variados ligados ao clube. Na época, estavam em moda os pseudônimos, e os cronistas do A.T.C. assinavam Marrecão, Fundo, Smash, Drive, Rod, Beduino, Joel, Sinhasinha, Nícia, Pythoniza e outros. Desses, só identifiquei Marrecão, que era Alcyr Pimentel.
   A.T.C. - o jornal
   Essa intensa atividade de comunicação gerou o surgimento do jornal A.T.C. – Orgão do Avenida Tennis Clube, o primeiro informativo social ateciano.
Logotipo do jornal A.T.C.

Cesar Millan, diretor
comercial do A.T.C.
Recorte de foto de 1935.
   O primeiro número do A.T.C., com quatro páginas, no formato  26 x 35 cm, surgiu em 1º de novembro de 1933. O diretor comercial era Cesar Millan, gerente da Livraria do Globo, que seria presidente do clube, por curto período, em 1935. O diretor responsável era Alcyr Valfredo Pimentel, e o redator-chefe era o médico Lamartine Souza, campeão do clube de 1920 a 1933 e seria seu presidente, em 1934.
Lamartine Souza, redator-
chefe do A.T.C.
Recorte de foto de 1932.
   A.T.C., o jornal, tinha redação, gerência e oficinas na Livraria do Globo, situada na 1ª Quadra da Rua Doutor Bozano, onde hoje está o edifício do Santa Maria Shopping. Cesar Millan, gerente da livraria, exercia em seu próprio escritório a direção comercial do A.T.C. e cedia espaço e equipamentos do setor administrativo para a redação do jornal. Nas oficinas gráficas da Livraria do Globo, que ocupavam grande área no subsolo da loja, era feita a impressão do A.T.C.
A importante empresa no ramo de
joias, relógios, pratarias e cristais
também vendia raquetes de tênis.

   
   As empresas santa-marienses que anunciavam no A.T.C. eram a Casa Binato, inaugurada em 1934, Casa Herrmann, Parisiense, Casa Oreste, Alfaiataria Dania, Casa Flora, Casas Pernambucanas, A Brasileira, Officinas Gauer, Casas São Paulo e Royal. A mais frequente era a Joalheria Péreyron.

   Uma personalidade do clube era destacada com foto e texto em coluna da primeira página que, a partir da 3ª edição, foi denominada “Galeria do A.T.C.”  A 1ª edição homenageou Norma Seibel, a Rainha:
O A.T.C. muito se envaidece e se orgulha, estampando em lugar de honra, o retrato da rainha de seu clube. A singeleza da homenagem não corresponde, é claro, à sua significação, mas deixa bem ver sua sinceridade. Soberana escolhida e eleita em pleito renhido, Norma impôs-se aos seus consócios pela graça natural, pela bondade, pelos dotes de espírito, pelo temperamento artístico e, quiçá, pelos seus olhos azuis. Irradiando beleza e mocidade, atrai naturalmente, sem coquetterie inútil. Seu prestígio não decorre do reinado. Norma é mais, é muito mais que rainha do Avenida – princesa linda e imperatriz da graça.  A.T.C., jornal de seus súditos, rende-lhe a homenagem de seu respeito.
   Nas colunas do jornal ateciano eram publicadas matérias várias: notícias, artigos, crônicas, comentários sociais, sempre assinados com pseudônimos. Tilden, Bidu, I di Ota, Sonhadora, Glória da Cidade, além dos já citados Fundo e Marrecão que, sabemos, era Alcyr Pimentel.
   O redator-chefe, Lamartine Souza, com sua longa experiência e aptidão tenísticas, escrevia sobre a técnica e jogadas do esporte. Usava o pseudônimo Elly Hesse, uma transposição fonética das letras iniciais de seu nome: L. S.
   Tênis de cuecas
   Um dos articulistas atecianos, que assinava T. Teco, escreveu na primeira edição do A.T.C. suas impressões sobre o então incipiente uso de calças curtas por alguns tenistas. Até então e nos anos seguintes, o uniforme branco do tênis incluía calças compridas.
   A semelhança do short branco com as grandes cuecas então usadas levou o articulista e outros a cunharem o termo “cuequismo”, isto é, jogar tênis de cuecas.
   Eis o primeiro parágrafo:

   Circulação e duração
   No expediente das primeiras edições é informado que o A.T.C. teria circulação bimensal “nas primeira e terceira semanas de cada mês”. Entretanto, tal periodicidade não ultrapassou a edição nº 5, quando se tornou mensal e, depois, voltou a ser bimensal em abril e maio de 1934. Entre o nº 12 e o 13, decorreram quase três meses.
   Na edição nº 13, de 6.9.1934, a direção do jornal explica a suspensão durante “a época mais aguda do inverno” quando a presença dos associados no clube havia diminuído e os colaboradores haviam deixado de produzir suas matérias.
   Não é possível saber quando o A.T.C. deixou de circular. No número 13, de 6.9.1934, última edição conhecida, uma nota explicativa da ausência do jornal durante o inverno nada comenta sobre sua suspensão. Ao contrário, anuncia que o jornal completará um ano de circulação e finaliza reclamando a participação dos associados.

   As atas da época e dos anos seguintes nada registram sobre a extinção do jornal.
   Há vários anos, Luiz Carlos Lang doou ao clube uma coleção do jornal A.T.C. com números que haviam pertencido a seu pai, Carlos Lang, e a Docelina Gomes da Rocha, uma das fundadoras. Outra coleção do jornal, da qual guardo cópia em meu arquivo, que pertencera a Amélia Pereira, a 2ª Rainha do Tênis, foi por mim entregue ao clube, há mais de 10 anos.
   Em novembro de 2012, precisando examinar as edições originais, eu as solicitei a Lisete Fröhlich, Superintendente do Avenida Tênis Clube, que com sua costumeira diligência determinou às arquivistas do clube a busca no arquivo. Infelizmente, só foram encontrados os números 1 e 11. Assim, além dessas duas edições, creio que existem somente as cópias dos números 1 a 13 em meu arquivo.

Fontes:
Acervo pessoal
Livro nº 1 de atas do Avenida Tênis Clube
A.T.C - Orgão do Avenida Tennis Clube, edições nº 1 a nº 13, 1933-34.


sábado, 8 de novembro de 2014

O festival do tênis

No ano de 1933, fatos importantes ocorreram no Avenida Tênis Clube. Houve a eleição da primeira rainha, foi composto o hino, realizado um festival beneficente e lançado o A.T.C., o primeiro jornal do clube. Na metade do ano, meu pai, Ennio Brenner, tornou-se campeão.
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   Em 15.9.1931, o Avenida Tênis Clube realizou um festival beneficente, no Coliseu Santamariense, que ficou lotado. As atas não revelam o motivo, sequer mencionam a realização do festival, mas pode ter sido para cobrir despesas decorrentes das novas instalações da sede, na Praça da República, inauguradas em 21.6.1931.
    Festival de 1933
  Dois anos depois, um novo festival, inicialmente projetado para homenagear a rainha do clube, solenizando sua coroação, tornou-se um variado espetáculo de artes cênicas, em benefício do clube, realizado no Cine-Theatro Independência.
 
O Festival do Tênis foi realizado no Cine-Theatro Independência,
na Praça Saldanha Marinho. O predio abriga hoje um shopping popular.
   Apresentações artísticas com o objetivo de angariar fundos para as sociedades locais haviam sido frequentes em passado recente. Na expectativa da realização do festival do Avenida Tênis Clube, um cronista escreveu, sob o pseudônimo “Joá”, no Diario do Interior, em 4.7.1933:
Não vão longe os tempos em que todos quantos em Santa Maria apreciavam os espetáculos de arte, fartavam-se de prazer, assistindo as magníficas soirées artísticas, organizadas em beneficio de nossas sociedades [...]. Aqueles espetáculos ganharam fama, e as enchentes e os aplausos gerais premiavam os esforços [...]. Depois, somente de longe em longe nos foi dado rever na ribalta os destacados elementos do mundo artísticos desta terra.
   O cronista prosseguiu afirmando sua confiança de que a festa de arte do Avenida Tênis Clube ofereceria a oportunidade de apreciar as inteligências moças que surgiram e brilhavam no meio artístico santa-mariense. Atores, autores e diretores poderiam revelar seus admiráveis dotes.
   Em 10 de maio, outro cronista escrevera que “para a respectiva entronização, está projetado um programa extraordinário, ao qual a diretoria do Avenida pretende dar um caráter de – reinado de verdade – solenizando-o, de maneira invulgar.”
Francisca de Campos Souza, "Dona
Chiquinha", esposa do Dr. Lamartine, 
foi organizadora do Festival.
   Naquele mês, foi criada uma comissão organizadora de várias pessoas que, entretanto, ficou reduzida a um número pequeno de senhoras ateceanas. Logo começaram, na sede do A.T.C. e no Clube Comercial os ensaios de danças clássicas e modernas, dirigidos por Renée Gauer, jovem professora de ginástica corretiva e rítmica.

   Era noticiada a participação dos elementos mais representativos do mundo artístico local: Norma Seibel, violinista; Clelia Filizzola, soprano; Hertha Puhlmannm pianista;  Garibaldi Poggetti, violoncelista e outras tantas figuras representativas do nosso escol artistico. A notícia antecipava que a primeiro ato seria composto de solos de violino, violoncelo, canto, dança, declamação e do consagrado coro a quatro vozes “Friedemann Bach”, sob a regência do Maestro Garibaldi Poggetti, que havia alcançado grande sucesso nos concertos realizados. Destacava o segundo ato, quando seria encenada “Barafunda”, uma revista de costumes locais, escrita especialmente para o festival por Lamartine Souza, citado como “um dos mais abnegados atecianos e elemento de maior cultura desta cidade”.
  A festa cênica era chamada Festival do Tênis ou Festival da Rainha. Três semanas antes do espetáculo, Alcyr Pimentel, sob o pseudônimo de “Marrecão”, finalizava sua crônica exaltando os dotes de Norma Seibel, a rainha a ser coroada.
 
Diario do Interior, 15.6.1933 - trecho final da crônica.
   Finalmente, na noite de terça-feira, 4.7.1933, o público lotou o Cine-Theatro Independência,  com capacidade para 2.000 pessoas.
   Na dança intitulada “No Templo das Três Graças”, tomaram parte Águeda Brazzale, Clelia Nieves, Amélia Pereira, Norma Saldanha, Mary Monteiro, Lourdes Crossetti, Hilda Soares, Emília Benaduce e as meninas Berenice Souza, Caster Belém, Lise Lenz, Leda Martins, Maria Bastide, Maria Souto e Therezinha Fernandes.
Publicado cinco vezes no Diario
do Interior
, em 4.7.1933

    No terceiro e último ato do espetáculo, Norma Seibel, a rainha eleita do Avenida Tênis Clube, foi solenemente coroada.
   Após a coroação, Norma Seibel trocou o vestido branco de rainha por um longo azul e executou uma peça ao violino, instrumento de que era exímia professora.
Fechando a linda festa de arte, os tenistas cantaram, em coro, o hino do valoroso Avenida Tênis Clube.
 
Norma Seibel, portando a coroa fabricada pela Escola de Artes e Ofícios
Foto de Venancio Schleiniger
Em 7.7.1933, o Diario do Interior
anuncia a reprise do Festival.
 O sucesso foi tal que uma reprise do espetáculo foi levada à cena, na sexta-feira seguinte, acrescentando ao programa um bailado das alunas do Colégio Centenário.

  Na sessão de diretoria do dia 15 de julho de 1933, foi deliberado um voto de louvor pela organização do Festival e registrado o benefício para o clube que, “não obstante a avultada despesa,” resultou a renda líquida de R$1:800$000
O Diario do Interior, edição de 7.7.1933, reconhece
o trabalho da comissão organizadora do Festival.


Fontes:
Acervo pessoal.
Acervo de Norma Seibel de Oliveira.
Arquivo Histórico Municipal de S. Maria - Hemeroteca
Livro nº 1 de atas do Avenida Tênis Clube.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Rodolpho Laydner – um ourives famoso

Rodolpho Laydner ~42 anos. Det. de foto
quando em visita a seu pai, em 1899.
   Nascido em Santa Maria, no dia 15 de abril de 1857, Rodolpho foi o primeiro filho homem de Jacob Ludwig Laydner e Maria Luiza Niederauer Laydner. O nascimento ocorreu na residência da família, construída três anos antes, na Rua Pacífica, depois Rua do Comércio. Após sucessivas reformas e ampliações, é a casa onde resido, na 2ª Quadra da Rua Doutor Bozano, 1065, assim renomeada, em 1924.

   Rodolpho Laydner tinha nove meses e meio quando foi batizado pelo Padre Antonio Gomes Coelho do Valle. O batismo foi celebrado na pequena e singela igreja católica da povoação, situada no local correspondente hoje à extremidade sul da Avenida Rio Branco, de frente para o espaço então destinado à praça.

   No Livro 5 de Batismos, fl. 25, da Igreja Matriz de Santa Maria, está registrado:
Rodolpho
Ao primeiro dia do mês de janeiro de mil oitocentos cincoenta e oito annos, nesta Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Santa Maria da Boca do Monte baptizei e puz os Santos Oleos ao innocente Rodolpho nascido a quinze de Abril de mil oitocentos cincoenta e sete filho legitimo de Jacob Luiz Laidner, natural d’Alemanha, e Luiza Laidner natural de São Leopoldo; netto paterno de João Laidner e Francisca Laidner; e netto materno de Filippe Niederauer e Anna Catharina Niederauer, todos os avós naturais d’Alemanha: Forão padrinhos João Veber e Maria Catharina Niederauer do que para constar fiz este assento. O Vig.º Antonio Gomes Coelho do Valle

   A madrinha, Maria Catharina Niederauer, era a esposa do então capitão João  Niederauer Sobr. - depois o heróico Cel. Niederauer -, tio do batizando, que partira, no mês anterior, integrando o Exército de Observação, para vigiar as fronteiras com os países platinos.
   O padrinho, João Weber, nascido em São Leopoldo, em 1829, casaria no ano seguinte, em 9.9.1858, com Joanna Sophia Niederauer, irmã de Maria Catharina.
   O Padre Antonio Gomes Coelho do Valle exerceu seu vicariato, em Santa Maria, de 17. 7.1853 até sua morte, em 9.11.1865.
   Rodolpho casou com Carolina Kümmel, nascida em 2.2.1862, filha de Carl Daniel Kümmel e Margarida Druck. Carolina era neta do genearca Johann Daniel Gottlieb Kümmel, nascido no vilarejo Lindenau/Prússia Ocidental, hoje Lipinka/Polônia. Foi o primeiro ferreiro da Colônia Alemã de São Leopoldo, aonde chegara em 12.8.1824.
   O casal teve os filhos: Rodolpho Laydner Filho (engenheiro civil, construiu a Hidráulica de São Leopoldo, em 1925), José Laydner, Augusto Laydner, Celina Laydner e Luiz  Laydner
   Aos 30 anos, Rodolpho e seu pai, Jacob Ludwig Laydner estavam entre os 31 fundadores do Clube Atiradores Santamariense, em 28 de setembro de 1887, então com sede na Rua Barão do Triunfo, onde havia o estande de tiro.

   Ourives
   Jacob Ludwig Laydner, pai de Rodolpho, embora fosse um jovem de 19 anos quando imigrou na Colônia Alemã de São Leopoldo, em 1848, já tivera boa formação como ourives na Europa. Poucos anos depois se estabeleceu em Santa Maria e, por volta de 1853, ele abriu a Casa Laydner, especializada em ourivesaria, relojoaria, ótica e selaria, ao lado de sua residência, onde hoje está o prédio nº 1073 da Rua Dr. Bozano.
   Na Casa Laydner, Jacob Ludwig foi mestre de seus sobrinhos e de seus dois filhos mais velhos – Rodolpho e João David – e de seu concunhado Nicolau Mergener, que abriu sua loja, em 1863, na esquina abaixo.

   Rodolpho foi o mais destacado dos filhos de Jacob Ludwig Laydner.
   Fez parte da equipe que realizou a locação da ferrovia Santa Maria-Passo Fundo, isto é, o reconhecimento preliminar que serve de base para o traçado definitivo, feito com levantamentos topográficos. O primeiro trecho seria iniciado em Santa Maria, em 1893, apesar da Revolução Federalista que convulsionava o Estado.

   R. Laydner & Cia.
   Seu irmão João David Laydner, cinco anos mais jovem, era ourives em Porto Alegre quando faleceu de "tifo preto", em 24.1.1899, com apenas 36 anos de idade.
   A viúva, Sophia Molz Laydner, então se associou com o cunhado Rodolpho Laydner. O contrato foi registrado em 8 de novembro de 1900, sob a razão social R. Laydner & Cia. no ramo de ourivesaria e relojoaria a varejo, pelo prazo de cinco anos, a contar de 22 de julho de 1899, com o capital de Rs 61:095$000 (61 contos e 95 e cinco mil réis). O contrato estabelecia:se a viúva contrair novas núpcias deixará a sociedade.” Foi registrado na Junta Comercial do RGS sob nº 2648.
   A casa de ourives de R. Laydner & Cia. ficava no centro de Porto Alegre, Rua Marechal Floriano nº 110. No Guia Bemporat, edição 1908-09, página 173, sob o título “Ourivesarias e Relojoarias”, consta: R. Laydner e Cia., Rua Marechal Floriano, 110, em Porto Alegre.
   Há 106 anos, o Correio do Povo publicou, na edição de 3 de junho de 1908, a reportagem abaixo transcrita com atualização ortográfica:

Sela mexicana - Vimos ontem, na vitrina da Casa Laydner, à Rua Marechal Floriano nº 110, uma luxuosa sela mexicana, prontificada por encomenda do Coronel João Francisco. A carona, de couro de tigre, tem, aos cantos, escudos de prata, com incrustações de ouro, e o assento é de couro de porco. Os coldres e a maleta são de couro de tigre, com guarnições de prata e ouro, e o cabeço da sela ostenta o monograma do Coronel João Francisco. O trabalho de selaria foi prontificado na Casa Schneider & Cia., e o de ourivesaria na oficina dos Srs. Laydner & Cia., fazendo ambos honra à nossa indústria. O Coronel João Francisco utilizará esta sela nas cavalhadas que se realizarão no Rio de Janeiro, por ocasião da exposição nacional. 

   O cliente era João Francisco Pereira de Souza, líder político do Partido Republicano em Livramento, que comandava o Quartel do Caty, no interior do Município, junto à divisa com Quaraí. Era uma unidade militar criada para combater a Revolução Federalista. O Cel. João Francisco acumulou grande poder militar e policial na região da fronteira e, devido à crueldade de suas ações e sua fama de sanguinário, foi chamado por Ruy Barbosa de a "Hiena do Caty".
   A exposição citada, que decorreu de 11 de agosto a.15 de novembro de 1908, comemorava  centenário da abertura dos portos. Fazia parte do programa a encenação das "Cavalhadas", uma tradição portuguesa que representava as batalhas entre cristãos e mouros, na Reconquista da Península Ibérica.
   Exposição Estadual de 1901
   O governo do Estado promoveu uma exposição industrial e agropecuária, de 24 de fevereiro a 2 de junho de1901, instalada em uma grande área à esquerda e atrás do antigo edifício da Escola de Engenharia, em frente à Praça da Argentina.
   Participaram 60 municípios com 2.200 expositores entre os quais Rodolpho Laydner. O catálogo da exposição, no setor de "Ourivesaria e joalheria", página 247, apresenta:
Expositores: Laydner & C. - Rua Marechal Floriano n. 110
Expõem os seguintes artefatos, executados em suas oficinas por operário nacionais e rio-grandenses.
Um aparelho de trança de fio de prata de 1ª qualidade, ornamentado com as armas do Rio Grande, em ouru de 18 quilates, constando das seguintes peças:
1 peitoral, 1 buçalete com cabresto, 1 cabecada. 1 par de rédeas, 1 rabicho, 1 maneia, 1 chicote, 1 freio, 1 par de bocais, 1 par de estribos meia picaria, 1 dito de esporas.
Pesando tudo 8 kg de prata e 400 g de ouro, no valor de Rs5:000$000.
2 facas guarnecidas de prata e ouro, no valor de Rs350$000.
1 par de boleadeiras de marfim, aparelhadas de prata, no valor de Rs100$000.
1 aparelho de prata encorreado em couro de anta, no valor de Rs650$000.
   Valeria atualmente Rs$24.000,00 em prata e Rs$32.000,00 em ouro, somente no apero, sem considerar a mão de obra.
   Johann Carl Laydner, vitivinicultor em Santa Maria, tio de Rodolpho, também participou da exposição com “12 garrafas de vinho tinto”, conforme o catálogo.

Exposição Estadual de 1901. À direita, a fachada lateral da Escola de Engenharia

  Política
  Rodolpho desenvolveu intensa atividade política, sendo personagem do mais alto relevo do Partido Republicano, como um dos seus fundadores e organizadores, em Santa Maria. Junto com outros cinco correligionários, fundou o Clube Republicano e, a seguir organizou o Partido na cidade, cujas reuniões eram realizadas em sua própria casa.
  Em Porto Alegre, continuou sua atividade partidária, estreitando amizade com Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros.
Augusto Laydner
   Augusto Laydner, o terceiro filho de Rodolpho, tornou-se também um membro ativo do Partido Republicano. Nascido em Santa Maria, em 28.1.1889, ele começou como caixeiro-viajante nos difíceis tempos em que percorria as rústicas estradas do interior em cavalgaduras e carroças. 
   Estabeleceu-se em Porto Alegre com casa comercial no ramo de ferragens e outras mercadorias, as Casas Laydner, na Rua Marechal Floriano. Transferiu residência para a Ilha da Pintada onde, em sociedade com Oscar Schmitt, ampliou o serviço de navegação entre as ilhas e a capital, com modernas lanchas a gasolina. Casou com Santa Santos, professora.
   Em minha infância, lembro da presença de seu filho mais velho, Werther, em nossa casa, em visitas à sua tia-avó Lydia Laydner Brenner, minha avó materna.


  As capas da Constituição Estadual de 1891
  Há muitos anos, conduzido pelo saudoso colega o arquiteto José Albano Volkmer, bisneto de João David Laydner, visitei o Museu Júlio de Castilhos para conhecer a capa de prata da Constituição do Estado do Rio Grande do Sul de 1891. Volkmer informou-me que a peça, medindo cerca de 25x35 cm e contendo a inscrição  Ao dr. Julio de Castilhos a Brigada Militar, fora elaborada por Rodolpho Laydner. Fotografei então a peça de prata com uma pequena câmara analógica, sem bos condições de iluminação, resultando uma foto de má qualidade.
   Em 2005, voltei ao museu para obter uma foto melhor, mas não mais encontrei a capa de prata, nem obtive qualquer informação dos funcionários.
   Rodolpho deve tê-la feito nos primeiros anos de sua empresa em Porto Alegre, pois Júlio de Castilhos faleceu em 24.10.1903.

   Recentemente, Guilherme Souto, trineto de Rodolpho Laydner, trouxe-me a informação de que uma outra capa da Constituição Estadual de 1891, que pertencera a Borges de Medeiros, fora confeccionada em ouro por seu trisavô. Fotos dessa peça foram publicadas em O Parlamento Gaúcho - da Província de São Pedro ao século XXI, 2013, com a legenda: “Este exemplar, com capa de ouro, pertenceu a Borges de Medeiros, que a mandou confeccionar para si”. Dificilmente o Presidente do Estado do R.G.S. confiaria o trabalho a outro ourives que não fosse seu amigo e correligionário Rodolpho Laydner.
    A valiosa peça pertence ao acervo cultural da Assembleia Legislativa e até poucos anos atrás esteve exposta com a identificação: “Autor: Rodolpho Niederauer Laydner”.
    Acrescente-se que o engenheiro Amadeu Laydner, no artigo Os ourives, publicado no Correio do Povo, em 28.7.1974, afirmou:
[...] Rodolfo, igualmente ourives, viera para Porto Alegre e aqui faleceu em 1938, tendo deixado grande nome como profissional. O original da Constituição Estadual de 14 de julho de 1891 está capeado por um trabalho em prata e ouro por ele executado.
    Amadeu Laydner era neto de Jacob Luiz Laydner Sobrinho, que fora aprendiz de Jacob Luiz Laydner e
se estabelecera em Alegrete. Amadeu morava em Porto Alegre, na Rua Duque de Caxias, 1243, apartamento 901. Certamente ele conhecera a Constituição “capeada por um trabalho em prata e ouro” e não se referia à peça do Museu Júlio de Castilhos, quase em frente ao seu endereço, feita somente de prata.
    Rodolpho Niederauer Laydner faleceu em Porto Alegre, em 11 de junho de 1938, com 81 anos de idade.

Fontes:
Arquivo pessoal.
Arquivo da Cúria Metropolitana de Santa Maria. Livro 5 de Batismos, fl. 25, da Igreja Matriz de Santa Maria.
LAYDNER, Amadeu. Os ourives. Correio do Povo, Porto Alegre, 28.7.1974.
SOARES, Débora Dornsbach e ERPEN, Juliana (org.). O Parlamento Gaúcho - da Província de São Pedro ao século XXI, Porto Alegre: Assembleia Legislativa do R. G. do Sul, 2013.
TIMM, Octacilio B. e GONZALES, Eugênio (org. e edit.). Album illustrado do Partido Republicano Castilhista - RGS. Porto Alegre: Livraria Selbach, 1934.
Correio do Povo, Porto Alegre, edição de quarta-feira, 3.6.1908..